Pecuária consome mais água por ano do que populações de cinco estados e DF somadas
A manutenção do rebanho bovino no país demanda um volume de recursos hídricos superior ao consumido pelas populações de cinco estados e do Distrito Federal juntos. Dados de uma nova análise da iniciativa Trase indicam que a pecuária utiliza entre 10,1 bilhões e 10,4 bilhões de metros cúbicos de água anualmente, enquanto a soma do uso doméstico em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e na capital federal atinge 7,8 bilhões.
As lavouras de soja, principal grão exportado, absorvem entre 188 bilhões e 206 bilhões de metros cúbicos por ano, o equivalente a sete vezes a capacidade da represa de Itaipu. Quase a totalidade desse montante provém da chuva, sendo que a irrigação responde por cerca de 8% do total.
O levantamento baseia-se em dados de 2015 a 2017 da plataforma Mapbiomas e da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA). O setor agrícola lidera o uso de água doce no mundo e representou 70% de todo o volume utilizado pela humanidade em 2020.
O objetivo do estudo é evidenciar o consumo indireto incorporado aos produtos comercializados. Michael Lathuillière, pesquisador sênior do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo e coautor do trabalho, detalha essa dinâmica. “Queremos mostrar justamente o nosso uso indireto de água, aquele consumido através de produtos. O Brasil, de certa forma, está exportando recursos hídricos.”
Grandes comerciantes de carne como JBS, Minerva e Marfrig dependem majoritariamente das bacias Paraná, Tocantins-Araguaia e Amazônica. A maior parte da água vinculada à atividade não é ingerida diretamente pelos animais, mas evapora de pequenos reservatórios usados para matar a sede do gado, o que representa dois terços do total utilizado.
Essa perda por evaporação reduz a disponibilidade hídrica a jusante para ecossistemas, abastecimento humano e geração de energia. Gigantes da soja como Bunge e Cargill concentram a demanda por irrigação na bacia do rio São Francisco.
A dependência dessas cadeias produtivas em biomas como Amazônia e Cerrado as torna vulneráveis à escassez hídrica, fenômeno agravado pelo desmatamento e pela crise climática. O desequilíbrio climático gerado pela derrubada da floresta causou prejuízo bilionário na produção de grãos na Amazônia entre 2006 e 2019.
Já no Cerrado, a vazão dos rios caiu 27% desde a década de 1970, o equivalente a 30 piscinas olímpicas deixando de fluir por minuto. A exposição ao risco de falta d’água varia entre as empresas, sendo que um terço das exportações da Marfrig enfrenta nível alto de escassez em bacias do sul.
No caso da soja, a Bunge possui mais de um terço de sua produção em municípios com probabilidade de estiagem superior a 20%. Questões regulatórias e de gestão nas propriedades rurais também influenciam o cenário.
Lathuillière aponta falhas no controle de captação e problemas de gestão. “Há uma questão em relação às outorgas de captação de água no Brasil, em que muitos reservatórios são construídos sem autorização. Há um problema político e de gestão nas fazendas.”
O estudo sugere que exportadores e financiadores estabeleçam metas para o uso da água e melhorem a transparência dos relatórios. A inclusão de indicadores hídricos ao lado do monitoramento do desmatamento é apontada como essencial para um comércio mais sustentável.

