Dias com calor acima de 34°C elevam risco de abandono no ensino médio público
Estudantes do ensino médio da rede pública brasileira têm 5% mais chances de abandonar a escola quando expostos a uma maior frequência de dias com temperaturas superiores a 34°C. O dado faz parte de uma pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em parceria com a Universidade Minerva, dos Estados Unidos, que analisou a relação entre o aquecimento global e a evasão escolar.
O impacto negativo foi identificado especificamente em instituições públicas de áreas urbanas, enquanto colégios particulares não apresentaram alterações significativas devido à melhor infraestrutura.
Os resultados foram divulgados na revista científica Nature Climate Change e apontam para um aprofundamento das desigualdades educacionais no país. A análise processou informações de mais de 80,7 milhões de matrículas registradas no Censo Escolar entre 2007 e 2016, cruzando esses dados com medições de temperatura de alta resolução do sistema ERA5, do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus.
Impactos no cérebro e no aprendizado
O desconforto térmico afeta diretamente a capacidade cognitiva dos adolescentes e prejudica mecanismos cerebrais essenciais. Julio César dos Santos, professor do programa de pós-graduação em neurociência da Universidade Federal Fluminense (UFF) e um dos autores do trabalho, explica que o calor excessivo compromete funções como concentração e autocontrole a partir dos 27°C. “Acima dos 27°C, alguns mecanismos cerebrais importantes para o aprendizado são prejudicados, por exemplo, a capacidade de concentração, autorregulação e autocontrole. Isso desestimula ainda mais o jovem a ir à escola, porque ele sente mais dificuldade em aprender e pode acabar abandonando os estudos”.
A dificuldade se estende para fora da sala de aula, pois noites quentes impedem o sono restaurador necessário para fixar o conteúdo estudado. O pesquisador alerta para a falta de ambientes adequados tanto na escola quanto nas residências dos alunos. “É uma combinação extremamente danosa para o aprendizado. O aluno não tem na escola nem em casa estruturas que poderiam minimizar o calor, assim ele tem mais dificuldade de aprender e de consolidar o pouco que aprendeu”.
Infraestrutura precária e legislação
A disparidade na climatização das escolas é um fator determinante para os resultados observados. Um levantamento do Centro de Inovação para a Excelência das Políticas Públicas (Ciepp) mostra que apenas 33% das salas de aula da rede pública possuíam climatização em 2023. Na rede privada, esse índice sobe para 47%, o que ajuda a mitigar os efeitos das altas temperaturas no rendimento dos alunos mais favorecidos.
O texto do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado pela Câmara dos Deputados com metas até 2034, incluiu pela primeira vez a obrigatoriedade de adaptação climática nas escolas. A legislação prevê que estados e o governo federal garantam recursos para que todas as unidades de ensino atinjam padrões de conforto térmico, além da criação de planos de prevenção contra eventos extremos.
Medidas emergenciais e caso no Rio de Janeiro
Diante da falta de estrutura ideal, algumas redes de ensino buscam alternativas paliativas para proteger os estudantes. O governo do Maranhão orientou as escolas a ajustarem os horários de entrada e saída no início de 2025 para evitar os picos de calor. Julio César dos Santos comenta a medida. “Essa não é a solução mais adequada, mas, enquanto não temos todas as escolas com condições adequadas para o conforto térmico, essa é uma estratégia que pode reduzir os efeitos negativos do calor”.
A crise climática nas escolas gerou reações judiciais recentes no Rio de Janeiro. A Justiça determinou que o governo estadual apresente um plano emergencial de climatização após o Ministério Público relatar 52 episódios graves de saúde, incluindo desmaios de alunos em salas que chegaram a 42°C. O governo tem prazos estabelecidos para entregar um diagnóstico da situação e um cronograma de execução das melhorias.
A Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro afirmou em nota que 97% das unidades possuem ambientes climatizados, mas não detalhou a cobertura específica nas salas de aula. A pasta informou que realiza obras na rede elétrica e adquire ventiladores como medida temporária enquanto trabalha na instalação de aparelhos de ar-condicionado nas escolas restantes. “A pasta segue trabalhando para garantir a climatização integral nas 37 escolas que ainda não receberam os aparelhos”.

