Condenado a 15 anos, Neno Razuk transformou gabinete na Assembleia em “QG” do jogo do bicho
O deputado estadual Roberto Razuk Filho (PL), o “Neno”, foi condenado a mais de 15 anos de prisão nesta semana sob a acusação de liderar uma milícia armada voltada à exploração do jogo do bicho em Campo Grande.
A sentença, proferida pelo juiz José Henrique Kaster Franco, da 4ª Vara Criminal, expõe como o parlamentar utilizou seu mandato e a estrutura da Alems (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) para financiar e operar a organização criminosa, caracterizando o que o magistrado classificou como “interseção institucional“.
Na decisão, derivada da Operação Successione, o juiz impôs a Neno Razuk uma pena de 15 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão em regime fechado, além de 5 meses de detenção em regime aberto. Os crimes imputados são organização criminosa, roubo majorado e exploração de jogos de azar. Apesar da condenação severa, o deputado poderá recorrer da decisão em liberdade.
Gabinete a serviço do crime
A investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), acolhida na sentença, revelou que o gabinete do parlamentar funcionava como uma extensão operacional da quadrilha.
Segundo o magistrado, a culpabilidade do réu é agravada justamente pelo uso da máquina pública: “Utilizava as estruturas da Assembleia Legislativa para imprimir material do jogo do bicho e para empregar parte da organização criminosa às custas do erário“.

Relatórios anexados ao processo mostram que a impressora colorida da Assembleia era usada para imprimir fotos de locais onde ficavam máquinas caça-níqueis de grupos rivais e listas de endereços. Mensagens interceptadas mostram um dos assessores, Diego de Souza Nunes, recebendo ordens de José Eduardo Abdulahad para preparar esse material logístico dentro da Casa de Leis.
Policiais e assessores
A estrutura montada por Neno Razuk incluía a nomeação formal de milicianos como assessores parlamentares. Entre os operadores do esquema lotados no gabinete estavam o major aposentado da Polícia Militar, Gilberto Luis dos Santos (o “Barba” ou “Coronel G. Santos”), e o sargento Manoel José Ribeiro (o “Manelão”).
A condição de militares da reserva desses assessores permitia ao grupo algo considerado gravíssimo pelo juízo: o acesso a sistemas restritos de segurança pública, como o Sigo (Sistema Integrado de Gestão Operacional) e o Infoseg. Essas ferramentas, pagas pelo contribuinte, eram desviadas de sua função para levantar fichas de pessoas e veículos que rondavam a quadrilha ou para monitorar passos de rivais.
Espionagem e obstrução
A sentença também destaca a sofisticação do grupo, que possuía informações privilegiadas sobre ações policiais. Diálogos interceptados revelam que os réus planejavam a expansão dos negócios ilícitos apenas após a deflagração de operações contra o grupo rival MTS, ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital).
Além disso, Neno Razuk teria atuado diretamente para obstruir a justiça. Em mensagens analisadas, o deputado orienta subordinados a não entregarem veículos utilizados nos crimes à polícia, com ordens expressas como “acho que não deveria entregar” e “segura tudo aí”.
Defesa
Outras 11 pessoas também foram sentenciadas no mesmo processo. Procurado pela reportagem, o advogado João Arnar Ribeiro, responsável pela defesa de Neno Razuk, informou que a decisão ainda não foi publicada oficialmente no Diário da Justiça e que aguarda a intimação formal. “Vamos recorrer. Na hora que for intimado, no momento processual oportuno vamos recorrer sim”, afirmou.
