Monitoramento do Pantanal ganha aporte inédito do Bezos Earth Fund e promete revolucionar a conservação com inteligência artificial
Um consórcio que reúne o Centro K. Lisa Yang para Bioacústica da Conservação, da Universidade Cornell, The Nature Conservancy e o Programa de Pesquisa em Biodiversidade do Pantanal recebeu um investimento do Bezos Earth Fund estimado em cerca de US$ 2 milhões. A proposta foi selecionada no Desafio de IA para Clima e Natureza entre mais de mil submissões globais e terá apoio para ampliar o monitoramento acústico em grande escala.
O projeto terá atuação simultânea em dois pontos críticos de biodiversidade do Sul Global. Na Guatemala o foco é a Reserva da Biosfera Maia, visando identificar em tempo real ameaças às florestas relacionadas a atividades ilegais. No Brasil, o objetivo é mapear a biodiversidade e avaliar a saúde do Pantanal por meio de registros sonoros e análise por inteligência artificial.
Objetivo e alcance
Os responsáveis pelo projeto destacam que o sistema combinará gravadores automáticos e modelos de aprendizagem de máquina para converter os sons do ambiente em informação sobre espécies e processos ecológicos, gerando dados úteis para ciência, gestão pública e comunidades locais.
O papel operacional no Brasil ficará a cargo da UFMS por meio da rede PPBio-Pantanal, que coordenará o trabalho de campo, oferecerá suporte logístico e mobilizará pesquisadores, estudantes e parceiros regionais para garantir a execução consistente das etapas de coleta e tratamento de dados.
O Centro K. Lisa Yang fornecerá equipamentos, suporte técnico especializado e aplicará modelos de aprendizado de máquina aos dados coletados, além de capacitar pesquisadores e estudantes brasileiros no uso das tecnologias envolvidas.
O coordenador da Rede PPBio-Pantanal Capital Natural, Fábio Roque, explicou como a parceria se consolidou e qual a importância do aporte para a cooperação internacional.
“O Bezos Earth Fund apareceu como uma excelente oportunidade para consolidar essa parceria e ampliar o escopo da cooperação, viabilizando um sistema de monitoramento de biodiversidade inovador, colaborativo e de alcance internacional”, informa.
O trabalho conjunto no Pantanal começou a se estruturar nos últimos três anos, quando a pesquisadora Larissa Sayuri Moreira Sugai, então vinculada à UFMS e hoje na Cornell, buscou parceiros locais para dar continuidade às pesquisas com ferramentas de bioacústica.

“Conseguimos, naquele momento, um financiamento da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect), o que nos permitiu organizar o trabalho de campo e iniciar as primeiras coletas de dados acústicos no Pantanal Sul. […] À medida que fomos estruturando nossa coleta e o gerenciamento dos dados, fomos entendendo melhor os potenciais e desafios da pesquisa em bioacústica no Pantanal, que nos permitiu amadurecer a metodologia e criar condições para que o projeto crescesse em escala e impacto”, expõe.
Parcerias e contribuição local
Ao ampliar a coalizão, as pesquisadoras reuniram outras instituições e pesquisadores interessados em expandir a iniciativa, unindo infraestrutura técnica, redes científicas e parcerias locais para apoiar o monitoramento em larga escala.
“Essa parceria é, portanto, uma via de mão dupla: traz tecnologia de ponta para o Brasil, ao mesmo tempo em que reconhece e valoriza o conhecimento local e a experiência dos pesquisadores e comunidades que vivem e atuam no Pantanal”, destaca a pesquisadora Liliana.

A metodologia prevista prioriza a automação contínua e a coprodução de conhecimento com moradores e observadores locais, que ajudam a identificar sons de espécies e a treinar os modelos de inteligência artificial, ampliando a precisão das detecções acústicas.
“Pela primeira vez, o Pantanal será monitorado de forma automatizada e contínua, com potencial para detectar aves, mamíferos, anfíbios, insetos e até morcegos a partir de seus sons. O sucesso do projeto depende totalmente do conhecimento local sobre a fauna. Moradores, pesquisadores e até observadores leigos contribuem identificando corretamente os sons das espécies, ajudando a treinar os modelos de inteligência artificial”, informa.
Os organizadores destacam que os dados gerados poderão orientar políticas públicas, subsidiar ações de conservação e valorizar saberes tradicionais dos pantaneiros, transformando sinais acústicos em informações úteis para gestão ambiental.
O processo seletivo conduzido pelo Bezos Earth Fund teve múltiplas etapas, com mentorias e workshops para alinhar propostas ao desafio. Na primeira fase 24 iniciativas foram escolhidas entre mais de mil concorrentes e, na etapa final, 15 projetos receberam aportes de até US$ 2 milhões cada.
“A seleção foi extremamente competitiva e contou com uma avaliação técnica rigorosa, apoiada por parceiros como a Amazon Web Services, Google.org e Microsoft Research. Acreditamos que o diferencial decisivo foi a força da parceria de Cornell, pioneira e reconhecida mundialmente no trabalho com IA, com a UFMS e PPBio Pantanal, que representam uma rede de pesquisadores e comunidades locais com profundo conhecimento sobre o território. Essa combinação entre excelência científica e engajamento regional foi o que garantiu nossa presença entre os vencedores globais”, destaca Liliana.
Além do financiamento inicial do Bezos Earth Fund, a equipe prevê perspectivas de continuidade e a mobilidade de pesquisadores entre as instituições parceiras, o que deve ampliar intercâmbio científico e qualificação em tecnologias de monitoramento.
Roque ressaltou o potencial do projeto para formação de recursos humanos e para a consolidação de infraestrutura avançada na UFMS destinada ao monitoramento da biodiversidade.

“Contribui para a formação de recursos humanos qualificados em novas tecnologias, o que considero essencial em um contexto de rápidas transformações ambientais e tecnológicas. Meu desejo é que essa iniciativa contribua para estruturar um núcleo de alta tecnologia voltado ao monitoramento da biodiversidade na UFMS, alinhado às demandas crescentes de mitigação e adaptação às mudanças climáticas e à conservação dos ecossistemas brasileiros”, finaliza.
O anúncio oficial destaca ainda o caráter internacional da proposta e a expectativa de que os métodos desenvolvidos possam servir de modelo aplicável a outras regiões do planeta.
