Inteligência Artificial reduz tráfego e compromete financiamento do jornalismo no Brasil
O uso crescente de resumos gerados por Inteligência Artificial em ferramentas de busca vem reduzindo o tráfego direto a sites de notícias e pressionando a fonte de receita de portais jornalísticos no Brasil, segundo levantamento setorial e relatos de associações da área.
Impacto nas audiências e no modelo de negócios
Conforme pesquisa da Associação de Jornalismo Digital, que assessora 152 veículos on‑line, um em cada quatro desses portais perdeu, em 2025, mais de 20% da audiência. “A queda de tráfego nos sites das associadas advindo de ferramentas de busca, uma preocupação generalizada na indústria jornalística, se mostra verdadeira no contexto das associadas”, concluiu a pesquisa da Ajor.
Carla Egydio, diretora de Relações Institucionais da associação, contextualizou os efeitos para a economia dos veículos. “O ecossistema jornalístico hoje vive um cenário de crise. Parte da publicidade já migrou, principalmente, para plataformas digitais. Os veículos que se financiavam, sobretudo por publicidade, têm uma dificuldade muito grande de manter seus negócios. Esse resumo da IA aprofunda um contexto de crise do jornalismo”.
Além da perda de audiência, a diretora alertou para impactos na qualidade informativa. “Isso pode gerar descontextualização, com prejuízos para o debate público. Você tem ainda os casos de cópia literal do conteúdo, que configura plágio”.
Exemplos internacionais e contingências do setor
Quedas de tráfego decorrentes de resumos de IA já motivaram ajustes em redações estrangeiras. No caso do Business Insider, demissões que atingiram 21% do quadro foram anunciadas em maio de 2025 em razão da diminuição do fluxo de leitores. Barbara Peng, da direção executiva da companhia, explicou as decisões estratégicas da empresa. “Setenta por cento do nosso negócio apresenta algum grau de sensibilidade ao tráfego [de usuários no site]. Precisamos estar estruturados para suportar quedas extremas de tráfego fora do nosso controle, por isso estamos reduzindo o tamanho geral da nossa empresa”.
No Brasil, parte da reação do setor passou por pressões por regulamentação e por negociações diretas. Dois grandes jornais fecharam acordos com empresas de tecnologia, com a Folha de S.Paulo acertando termos com a OpenAI depois de processo judicial, e O Estado de S. Paulo estabelecendo acordo com o Google.
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica abriu investigação em abril para avaliar se o Google abusou de posição dominante ao empregar conteúdos jornalísticos em ferramentas de IA sem remuneração aos veículos responsáveis.
Especialistas e representantes do setor destacam que a difusão das novidades teve aceleração prática a partir de maio de 2024, quando o AI Overviews do Google passou a oferecer resumos em português nos resultados de busca, desviando cliques que antes iam diretamente aos sites.
Enquanto isso, entidades profissionais pressionam o Legislativo por medidas que protejam a remuneração do jornalismo.
A Federação Nacional dos Jornalistas tem cobrado aprovação do Marco Regulatório da IA, o PL 2338 de 2023, que prevê pagamento pelas plataformas pelo uso de obras e reportagens protegidas pela Lei de Direitos Autorais, proposta que foi remetida ao exame da Câmara em março de 2025.
Samira de Castro, presidenta da Fenaj, apontou dificuldades na tramitação do projeto e no enfrentamento das resistências das empresas de tecnologia. “O lobby das big techs é muito forte. Elas querem, para ter uma ideia, tirar toda essa parte que fala de direito autoral. Esse é um dos pontos que têm emperrado esse projeto na Câmara”.
Samira também observou lacunas no texto aprovado no Senado sobre transparência na utilização de conteúdos jornalísticos para treinar modelos. “O PL também não cria mecanismos específicos de transparência sobre quais conteúdos jornalísticos foram utilizados para treinar modelos de IA, mas isso pode ser objeto de regulamentação posterior”.
Do lado da Câmara, a tramitação está condicionada à apresentação de parecer pelo relator e ao calendário político. A assessoria do presidente da Casa informou que a definição de data depende do relator Aguinaldo Ribeiro e que, diante do período eleitoral, a votação deverá ocorrer após as eleições de outubro.
Sobre dúvidas operacionais do projeto, o relator externou questões práticas a jornalistas antes do recesso parlamentar. “Como é que isso vai funcionar para um artista independente? Como é que funciona? A operacionalidade eu tenho dúvida de como isso vai funcionar”.
A comissão especial que analisa o marco não se reúne desde novembro de 2025, o que mantém o texto estagnado no Congresso enquanto o setor sente os efeitos econômicos e reputacionais das mudanças na distribuição de conteúdos.
Representantes do setor público e das empresas oferecem leituras distintas sobre a necessidade de intervenção. O governo federal defende a aprovação do projeto como resposta ao aumento da judicialização envolvendo direitos autorais, segundo o secretário de Direitos Autorais e Intelectuais do Ministério da Cultura. “Enquanto esse PL não for aprovado, o uso não autorizado de conteúdo jornalístico, ou qualquer conteúdo protegido por direitos de autor, para o treinamento de sistemas de IA, constitui violação de, ao menos, sete dispositivos da lei de direito autoral”.
Por outro lado, associações empresariais de tecnologia criticam o texto que veio do Senado e afirmam que a regra sobre direitos autorais pode inviabilizar o treinamento de novos modelos locais e afetar investimentos em infraestrutura digital, posição divulgada em nota por entidades como a Brasscom.
O cenário coloca o jornalismo profissional diante de escolhas institucionais e comerciais sem solução imediata, com impactos concretos sobre audiência, receitas e capacidade de sustentação das redações.

