Diagnóstico tardio reduz chances de cura do câncer de pulmão no Brasil

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Análise de 14.145 registros do Sistema Único de Saúde em 2023 mostra que, entre os casos com estadiamento informado, 89,6% chegaram ao sistema em estágios 3 ou 4, momentos em que as possibilidades de cura são escassas.

Dos 8.117 prontuários que continham indicação de estágio, 2.015 foram classificados como estágio 3 e 5.252 como estágio 4, totalizando 7.267 pacientes. Apenas 698 descobertas ocorreram em fases iniciais, com 307 no estágio 1 e 391 no estágio 2.

Do conjunto analisado, 3.857 registros constaram como ignorados e 2.100 como não se aplica, o que evidencia falhas na completude das informações oncológicas públicas.

Igor Morbeck, membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, relaciona o aumento dos diagnósticos avançados à exposição crescente a fatores de risco e chama atenção para a prevalência da doença entre a população brasileira

“Isso expõe, obviamente, a população brasileira cada vez mais ao risco de desenvolver câncer. O câncer de pulmão é um dos mais incidentes”

O oncologista aponta o tabagismo como causa principal e ressalta que outros elementos colaboram para o risco, incluindo sedentarismo, obesidade, alimentação inadequada, poluição atmosférica, exposição ocupacional a agentes químicos, predisposição genética e doenças pulmonares crônicas prévias.

Para reduzir o atraso no diagnóstico, Morbeck defende a realização anual de tomografia por pessoas com fatores de risco

“Essa tomografia anual está disponível no SUS. É totalmente possível fazer tomografia”

Ao mesmo tempo, o médico alerta para a ausência de um programa de rastreamento nacional específico para o câncer de pulmão, fator que agrava a detecção tardiamente da doença

“E essa doença, por ser uma doença silenciosa, quando os sintomas acontecem, eles mostram uma forma comum para outros sintomas secundários como, por exemplo, tosse, uma leve falta de ar, às vezes um quadro que simula uma infecção, uma bronquite, a asma, uma gripe. Isso faz com que as pessoas protelem o diagnóstico”

O levantamento destaca que quase 90% dos pacientes encaminhados ao SUS com diagnóstico ou suspeita já se apresentam em estágios avançados, cenário que, segundo especialistas, reflete gargalos de acesso à atenção primária e à tecnologia diagnóstica

“Aquilo que já é crítico mundialmente, no Brasil está em torno de 90%, e expõe exatamente esses gargalos de acesso ao SUS”

Morbeck alerta que a procura tardia por serviços básicos de saúde torna o caminho até a confirmação diagnóstica ainda mais demorado

“Os pacientes realmente ficam vulneráveis, só procurando serviços básicos de saúde quando têm sintomas, e o atraso para o diagnóstico quando procuram o sistema básico de saúde, atenção primária, é ainda maior”

O oncologista também critica o uso isolado do raio X de tórax para investigação de tumores, pois, segundo ele, o exame frequentemente não identifica a doença e o paciente pode receber tratamento sintomático inadequado

“E esses pacientes, muitas vezes, vão para casa com medicamentos, com antibióticos, e a doença só piora”

Ao comentar diferenças regionais, Morbeck cita maior incidência em áreas mais povoadas e observa também a presença do tabagismo no Sul

“No Sul também há pacientes tabagistas e, com certeza, essa região tem mais incidência de câncer de pulmão do que outras”

Prevenção e custos

O especialista propõe que o Ministério da Saúde lidere campanhas com agentes comunitários para identificar famílias com tabagistas e agendar tomografias, medida que, na avaliação dele, seria também financeiramente vantajosa para o sistema público.

“Isso poderá economizar muitos milhões de reais para o Ministério da Saúde”

Morbeck ilustra a diferença entre detectar precocemente e acompanhar um caso avançado durante anos

“É muito diferente um paciente que precisa de uma cirurgia daquele outro paciente que precisa tratar um câncer de pulmão ao longo de toda a vida”

O Instituto Nacional de Câncer projeta 35.380 novos casos anuais no triênio 2026 a 2028. Em 2024, a doença foi responsável por 32.555 mortes no país. Estimativas também atribuem ao tabagismo cerca de 85% dos casos de câncer de pulmão.

Relato de paciente

Mônica Chain Montone, paciente atendida pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, relata ter enfrentado a doença em 2008 com recidiva em 2010 e enfatiza a diferença que um diagnóstico precoce pode fazer no prognóstico

“Mas consegui me tratar e me curei desde 2010”

Mônica atribui o câncer ao tabagismo, apesar de ter interrompido o hábito uma década antes, e defende políticas públicas para rastrear tabagistas e ex-tabagistas

Ao lembrar o tratamento inicial ela relata que os médicos estimaram alta probabilidade de cura quando o tumor foi identificado cedo, e que a experiência pessoal a motivou a servir de exemplo para outros pacientes

“E eu não achava. Então, decidiu ser ela mesma a pessoa que ia dar certo. Eu vou ser meu próprio exemplo e vou falar para todo mundo saber que tem possibilidade de cura. E deu certo”

Mônica realiza acompanhamento anual no Hospital A C Camargo com tomografia de baixa radiação e ressalta a necessidade de conscientização no mês de prevenção do câncer de pulmão

“É importante conscientizar as pessoas. Que eu sirva de alerta”

A campanha Respire Agosto, do Instituto Lado a Lado pela Vida, busca chamar atenção para o câncer de pulmão como uma das principais causas de morte evitável, reforçando a relação entre a doença e o tabagismo.

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