Envenenamento por picada de escorpião é mais perigoso para crianças, alerta especialista

news 190330 1783523152

Uma criança de 11 anos foi picada ao calçar um sapato no Distrito Federal e, após 24 dias em coma induzido, faleceu no domingo 5, gerando atenção para a vulnerabilidade pediátrica em acidentes por escorpião. A família procurou inicialmente o Corpo de Bombeiros e só obteve o soro antiescorpiônico em um hospital regional, de onde a menina foi encaminhada a uma unidade de terapia intensiva e intubada.

O Brasil concentra mais de 170 espécies de escorpião, com variação na toxicidade conforme o tipo do animal e a vítima, e o escorpião-amarelo responde pela maioria dos casos mais graves devido à sua ampla distribuição em todas as macrorregiões do país.

Joelma Gonçalves Martin, especialista da Sociedade Brasileira de Pediatria, contextualiza a maior gravidade dos casos em crianças: “É um veneno extremamente agressivo. A criança é picada, recebe a mesma quantidade de veneno que um adulto receberia, mas nela o veneno se distribui por um organismo que tem um peso corporal menor. Então isso vai resultar numa dose de toxina por quilo de peso maior nas crianças, do que no adulto”. A explicação demonstra por que a mesma inoculação tem impacto diferenciado conforme a massa corporal do paciente.

Sintomas e evolução clínica

As toxinas do veneno atuam diretamente no sistema nervoso e afetam especialmente o coração e as vias respiratórias, o que pode levar a desfechos agudos. “Essas substâncias podem causar ataque cardíaco importante, podem levar à hipertensão, levar à edema agudo de pulmão. E, no caso do coraçãozinho da criança e do sistema nervoso isso é mais intenso, já que as crianças têm menor reserva fisiológica para suportar essas alterações”. Quando o quadro piora surgem sinais como taquicardia, sudorese, alterações de pressão arterial, convulsão, agitação psicomotora, sonolência, falta de resposta neurológica, bradicardia, dor abdominal e falta de ar.

“A intensidade dos sintomas da picada do escorpião vai depender, claro, da quantidade de veneno que foi inoculada e da idade do paciente, sendo que as crianças têm sintomatologia mais grave”. Esse fator determina a rapidez necessária na assistência e a decisão sobre soroterapia.

Atendimento e primeiros socorros

O sinal cutâneo da picada costuma ser discreto, mas a dor intensa indica que há necessidade de atendimento imediato, sobretudo em crianças, idosos e imunodeprimidos. “É muito importante que nós tenhamos nos municípios um mapeamento de onde é o serviço mais próximo que tenha o soro antiescorpiônico, para que os pacientes possam ser imediatamente encaminhados para lá, porque efetivamente o tempo de recebimento deste soro é responsável pela melhor resposta”. Por isso, Secretarias Estaduais de Saúde devem manter atualizadas as listas de hospitais de referência.

Em deslocamento emergencial, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pelo telefone 192 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193 podem ser acionados para levar o paciente até unidades com soroterapia, conforme informações do Centro de Informação e Assistência Toxicológica. No caso relatado, a necessidade de transferência contribuiu para a demora no início do tratamento específico.

Quanto aos cuidados imediatos antes da chegada ao hospital, a orientação inclui higienizar o local da picada e administrar analgésico oral para amenizar a dor, sem substituir o transporte ao serviço de referência. “Higienizar o local [da picada]. Eventualmente, pode dar um remédio com analgésico via oral, que costuma ser pouco eficaz, mas é para minimizar um pouquinho a dor. Levantar o membro [que recebeu a picada], também pode ser complementos do tratamento importantes, mas que não devem atrasar o encaminhamento ao hospital”. Essas medidas suportam o paciente até a soroterapia, que é decisiva para o prognóstico.

Manter informação prévia sobre onde encontrar o soro evita perda de tempo procurande unidades sem antídoto e pode mudar o curso do atendimento.

Para reduzir riscos em crianças, é preciso intensificar ações preventivas em domicílios e arredores. Orientar os menores a chacoalhar sapatos e roupas que ficaram parados, evitar brincar em locais com buracos nas paredes ou acúmulo de entulho e afastar camas e berços das paredes são medidas práticas recomendadas por especialistas e por material técnico do Ministério da Saúde.

O manual do Ministério da Saúde também recomenda limpeza constante para evitar a presença de insetos que sirvam de alimento ao escorpião, a instalação de soleiras e telas, a vedação de ralos e pias fora de uso, além de impedir que roupas de cama e outros tecidos toquem o chão. Ao detectar escorpiões, a comunicação à vigilância ambiental é sugerida para ações de controle local.

“Gostaria de enfatizar que os escorpiões se multiplicam por partenogênese, portanto eles têm os filhotinhos sozinhos mesmo. Quando uma pessoa encontra um escorpião, em geral, existe uma família deles por perto”. A observação reforça a necessidade de inspeção e ações coordenadas de limpeza e vedação dos espaços para reduzir a presença desses animais.

O episódio que resultou na morte da menina de 11 anos impõe atenção ao tempo de resposta dos serviços de saúde e à adoção de medidas preventivas e de informação pública, sem que se deva extrapolar conclusões além dos dados médicos e administrativos apurados nos registros do atendimento.

PUBLICIDADE


andorinha

Veja também