Moradores denunciam riscos em estrada tomada pelo transporte de minério em Corumbá
A estrada que liga Porto Esperança à BR-262 foi construída para romper décadas de isolamento e garantir acesso terrestre permanente à comunidade. Anos depois, a realidade encontrada por quem vive no distrito é bem diferente da imaginada quando a ligação rodoviária foi implantada. Hoje, a via se transformou em um dos principais corredores utilizados para o transporte de minério extraído na região de Corumbá, cenário que vem provocando uma série de reclamações relacionadas à segurança, infraestrutura e qualidade de vida.
Um dos problemas relatados pelos moradores foi flagrado pela equipe de reportagem do Folha MS que registrou o tombamento de uma carreta carregada na rodovia de acesso ao distrito na semana passada. Segundo testemunhas, o acidente ocorreu por volta das cinco horas da manhã, após o veículo derrapar na pista e tombar às margens da estrada. O motorista não ficou ferido.

O caso, porém, está longe de ser tratado pelos moradores como um episódio isolado.
Relatos ouvidos pela reportagem apontam que acidentes e incidentes envolvendo veículos pesados são frequentes ao longo do trecho utilizado para escoamento mineral. A percepção da comunidade é compartilhada pela vereadora Hanna Santana, que recentemente cobrou providências da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul) e da mineradora LHG Mining para melhorar as condições de segurança da estrada.
“Situações semelhantes são observadas com frequência, havendo moradores que afirmam presenciar ocorrências ou incidentes envolvendo veículos pesados praticamente todas as semanas”, destacou a parlamentar em documento encaminhado aos órgãos responsáveis.
A preocupação aumentou novamente nesta semana, quando uma carreta utilizada no transporte de minério sofreu um incêndio na BR-262, nas proximidades da entrada do distrito de Albuquerque. Segundo o Corpo de Bombeiros, 16 pneus foram destruídos pelas chamas. O fogo foi controlado antes de atingir a carga transportada.

Corredor de cargas
Moradores afirmam que a estrada passou por uma mudança radical de função nos últimos anos.
Projetada para atender a comunidade local, pescadores, produtores rurais e turistas que visitam a região pantaneira, a via passou a receber fluxo intenso de caminhões e carretas que operam no transporte de minério entre as áreas de extração e os terminais de embarque instalados às margens do Rio Paraguai.
Em diversos momentos do dia, filas de veículos pesados se estendem por quilômetros ao longo da rodovia. O movimento ocorre praticamente durante as 24 horas, alterando a rotina de quem vive às margens da estrada.

Segundo relatos recebidos pela reportagem, o excesso de velocidade praticado por parte dos condutores também preocupa moradores, principalmente em trechos próximos às residências e áreas de circulação de pedestres.
Hanna Santana aponta que a situação é agravada pela deficiência estrutural da via.
“Não existe fiscalização e a estrada sobre aterro apresenta limitações estruturais, como falta de acostamento, carecendo de sinalização adequada urgente”, afirmou.
A parlamentar também solicitou informações sobre medidas de manutenção, reforço da sinalização, fiscalização de velocidade e implantação de mecanismos de segurança nos pontos considerados críticos.
Poeira de um lado, lama do outro
A poeira gerada pelo transporte mineral é uma das principais reclamações das comunidades localizadas ao longo da rota. Como medida para reduzir o problema, foram instalados sistemas de aspersão de água em diferentes trechos da estrada. A solução, no entanto, passou a gerar novas críticas.
Moradores relatam que os equipamentos são acionados sem horários definidos e acabam transformando partes da via em áreas escorregadias, especialmente para motociclistas. Um morador que pediu para não ser identificado por receio de represálias afirma que os aspersores criam situações de risco para quem utiliza a estrada diariamente.

Segundo ele, os sistemas entram em funcionamento de forma repentina, molhando pedestres, ciclistas e motociclistas que passam pelo local.
O morador relata ainda que muitos usuários da estrada precisam aguardar o desligamento dos equipamentos para seguir viagem, enquanto outros optam por atravessar os trechos molhados, mesmo diante do risco de derrapagem.
Em dias de maior movimentação, a combinação entre água, terra e resíduos transportados pelos caminhões forma pontos de lama ao longo da via.
Sinalização comprometida
Outro problema apontado por moradores é o impacto da poeira de minério sobre a sinalização rodoviária. Segundo relatos, placas instaladas ao longo do trajeto e até mesmo a pintura horizontal acabam encobertas pelo material carregado pelos veículos.
Em alguns pontos, a camada de poeira reduz a visibilidade da sinalização, principalmente durante os períodos mais secos do ano.

A situação preocupa quem utiliza diariamente o acesso, especialmente à noite e em dias de baixa visibilidade.
Infraestrutura sob pressão
Os impactos não se restringem à estrada de Porto Esperança. A partir desta sexta-feira, a ponte sobre o Rio Paraguai, na BR-262, principal ligação terrestre entre Corumbá e o restante do Estado, passa a operar em meia pista para obras de recuperação estrutural.
A intervenção prevê investimento superior a R$ 11,7 milhões e inclui reforço estrutural e recuperação de diversos componentes da travessia.

Embora a obra tenha como objetivo prolongar a vida útil da ponte e garantir mais segurança aos usuários, ela ocorre em um momento de crescimento das operações logísticas ligadas à mineração na região.
A própria ponte é considerada estratégica para o transporte de cargas, acesso aos terminais portuários e deslocamento de moradores, turistas e trabalhadores que circulam diariamente pelo Pantanal.
Comunidade cobra soluções
Para os moradores de Porto Esperança, o principal problema não é apenas a presença da mineração, mas a sensação de que a infraestrutura disponível não acompanhou o aumento da movimentação de cargas observado nos últimos anos.

Enquanto novas carretas seguem chegando diariamente aos terminais de embarque instalados às margens do Rio Paraguai, a comunidade afirma continuar convivendo com acidentes, poeira, lama, excesso de velocidade e uma estrada considerada inadequada para o volume de tráfego que recebe atualmente.
A via que um dia simbolizou o fim do isolamento do distrito tornou-se, para muitos moradores, o retrato dos desafios trazidos pela expansão logística da atividade mineral no Pantanal.

