Bolívia registra prisões de líderes de protestos com respaldo dos EUA
As prisões de lideranças em curso marcam a escalada da crise política na Bolívia no 36º dia de protestos e ocorrem em meio ao apoio público do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, ao governo do presidente Rodrigo Paz.
Conforme registros da Administradora Boliviana de Rodovias ABC, há 81 bloqueios ativos em diversos departamentos, sobretudo nas imediações da capital La Paz e nos estados de Cochabamba, Potosí, Oruro, Santa Cruz e Chuquisaca, gerando desabastecimento de combustíveis, alimentos e medicamentos nas áreas afetadas.
As autoridades imputam aos manifestantes crimes que incluem “terrorismo” e “instigação pública para delinquir”. Entre os presos das últimas jornadas estão a ex-senadora do MAS Simone Quispe, o secretário-executivo da Federação de Conselhos de Bairros de La Paz Justino Apaza, e a dirigente da Federação Carrasco Yesenia Varga.
Em comunicado divulgado nas redes sociais de Simone Quispe, familiares denunciam procedimento irregular e descrevem a ação policial com detalhes. “Um grupo de indivíduos encapuzados invadiu sua casa na frente de sua família, a subjugou e a transportou à força em uma van branca sem placas, sem se identificarem ou apresentarem qualquer mandado de prisão”.
A Central Operária da Bolívia COB reagiu às detenções com uma nota que classifica as medidas como perseguição às lideranças sociais. “Advertimos que não se permitirá o retorno das práticas de perseguição contra líderes sociais”, afirma a entidade.
Pedidos de prisão foram emitidos também para dirigentes como Vicente Salazar, ligado à organização Los Ponchos Rojos e à Federação de Camponeses Túpac Katari, e para Mario Argollo, presidente da COB, mas o judiciário revogou esses mandados. Argollo disse que passaria à clandestinidade diante das “perseguições”.
O cenário político se agravou após manifestações que começaram por reclamações contra a qualidade do combustível fornecido pelo governo e evoluíram para bloqueios e protestos massivos após a promulgação de uma lei sobre terras que camponeses interpretam como favorecimento ao agronegócio em detrimento de pequenos proprietários.
O professor de ciência política Clayton Cunha Filho, da Universidade Federal do Ceará UFC, avaliou o clima de instabilidade ao comentar a situação e os possíveis desdobramentos. “Por um lado, a população toda muito cansada pela carestia provocada, inflação de alimentos e desabastecimento, por causa dos bloqueios. Já os setores sociais que estão protestando afirmam que vão continuar até a renúncia do presidente. E ainda tem a ameaça de um iminente estado de Exceção que, certamente, aumentaria a repressão”.
Sobre a possibilidade de intervenção estrangeira, Clayton ponderou riscos e prioridades geopolíticas. “Não dá para se descartar que, eventualmente, os EUA pudessem até mesmo fazer alguma intervenção mais direta, embora seja improvável porque os EUA estão com a questão do Irã, da Ucrânia, mas não dá para descartar”.
O apoio diplomático e político dos Estados Unidos foi explicitado pelo próprio secretário de Defesa Pete Hegseth em rede social ao endossar ações contrárias ao que chamou de retorno do antigo status quo. “Os Estados Unidos estão observando. A Bolívia não deve se permitir cair na armadilha do antigo status quo de domínio narco-terrorista na região”.
Em outra postagem, Hegseth ampliou o posicionamento sobre cooperação hemisférica. “Continuaremos a apoiar nossos parceiros da Coalizão Contra o Cartel das Américas, como a Bolívia, para garantir que os narco-terroristas sejam dissuadidos de lucrar com a morte e a destruição em nosso hemisfério”.
Analistas consultados apontam que o respaldo externo pode legitimar medidas mais duras por parte das Forças Armadas e das forças de segurança, o que alimenta preocupação de setores sociais quanto a uma intensificação da repressão.
No início de junho, dois ministros deixaram o cargo sob pressão das mobilizações. Em 2 de junho renunciaram os titulares da Defesa Marcelo Salinas e da Educação Beatriz García, soma que se juntou à saída em 21 de maio do ministro do Trabalho Edgardo Morales.
O ministério da Defesa foi assumido por Ernesto Justiniano, figura vinculada ao combate ao narcotráfico no governo de Rodrigo Paz e responsável pelo retorno da Agência de Repressão às Drogas DEA à Bolívia, depois de sua expulsão em 2008 pelo ex-presidente Evo Morales por acusações de espionagem e conspiração.
No terreno institucional, o Congresso revogou na última semana a norma que restringia o uso do estado de exceção e discute agora um novo projeto enviado pelo Executivo. O texto recebeu aprovação no Senado e segue em análise na Câmara de Deputados, o que mantém em aberto a possibilidade de adoção de medidas excepcionais.
As mobilizações reúnem camponeses, povos indígenas, professores e mineiros e mostram continuidade enquanto a exigência por renúncia do presidente permanece central para os setores em protesto. A situação segue com impacto direto no abastecimento e com previsibilidade limitada, segundo especialistas e lideranças sociais.

