Barco leva atendimento em saúde a ribeirinhos do Baixo Madeira

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Centenas de pessoas se aglomeraram na manhã de maio em torno da Unidade de Pronto Atendimento de Calama aguardando as equipes do Barco Ciência, Saúde e Cidadania, que entre 20 e 24 de maio trouxe atendimento direto a ribeirinhos do Baixo Madeira, com mais de 100 estudantes, professores e pesquisadores a bordo.

A ação, promovida pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia INCT-CONEXAO em parceria com a faculdade Afya São Lucas de Porto Velho, ocupou o barco com equipamentos odontológicos, aparelhos para exames oftalmológicos e estrutura laboratorial capaz de gerar resultados rápidos.

Em Calama, a maior comunidade atendida, onde vivem cerca de 2,3 mil pessoas, a procura concentrou-se nos exames de visão, que já vinham sendo demandados pela população diante da escassez de oftalmologistas na região. Foram realizados mais de 200 atendimentos oftalmológicos e uma ótica de Porto Velho doou 300 óculos de grau.

Wuelison Lelis de Oliveira, pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, explicou o esquema de triagem e encaminhamentos adotado pela equipe. “Dividimos o fluxo essencial pensando nos atendimentos que estamos trazendo, tanto atendimento médico, enfermagem, oftalmológico, biomédico, nutrição, fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, educação física e a área jurídica também”

A entrada no fluxo começava por uma triagem na UPA, com aferição de peso, altura, índice de massa corporal e pressão arterial, seguida da direção do paciente ao serviço indicado, o que permitiu, conforme a organização, priorizar consultas médicas antes de encaminhamentos complementares.

Moradora da Gleba Rio Preto, a agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis relatou as dificuldades de deslocamento até Calama e o esforço para chegar ao atendimento. “Para a gente vir no posto para fazer exame de malária, um exame comum, a gente tem que vir até Calama. É essa a dificuldade, sair de lá para ser atendida e, quando vem um barco desse, com todo tipo de exame e de consulta, a gente tem que aproveitar. Até porque nem sempre a gente fica sabendo. Como é longe, a gente tem essa dificuldade e, às vezes, quando a gente chega, o barco já foi embora”

Vânia descreveu a logística de viagem e o apoio recebido para percorrer a trilha até a margem do rio e depois a rabeta. “Ela soube e eu falei assim: avisa o dia certinho que a gente vai. Eu vim para a casa dela um dia antes e de lá a gente saiu, porque é muito longe. Se eu fosse sair de casa, eu teria que sair meia-noite para chegar aqui umas 7h, e era capaz de nem ter mais vagas”

Sobre os atendimentos que recebeu, Vânia contou que no dia anterior passou por diferentes serviços. “Ontem eu vim ser atendida por odontologia e o clínico geral, passei também no dentista, por aqui tudo, passei nas belezas também”

Ela comemorou a perspectiva de receber os óculos doados. “Eu consegui e vão sair os óculos que vou receber no dia 12 [de junho]”

A dona de casa Edna Miranda de Sousa levou a neta Bianca Sousa de Castro para checar possíveis problemas de saúde que não são diagnosticados na comunidade onde vivem. “Eu queria saber se ela está com anemia ou alguma coisa, fazer um acompanhamento médico. A Bianca também reclama de pequenas manchas no corpo e pequenas verrugas nas pálpebras”

A menina descreveu os incômodos que sentia nos olhos. “Dói o olho e coça, coça bem muito, bem muito”

O pequeno Azafi Pitangui, morador de Calama, recebeu atendimento odontológico para remoção de cárie e higienização e comemorou a experiência. “Gostei do dentista, mas não chorei, não! Ele só colocou a massinha três vezes e depois não saiu, não”

Azafi também falou sobre sua ambição profissional após o contato com os atendimentos. “Porque é muito legal ajudar as outras pessoas, é bom e faz bem”

O estudante de odontologia Jonatas Ponce destacou a complexidade logística enfrentada pela equipe e pela população que depende do transporte fluvial. “A logística é muito complicada. Para o atendimento, eu mesmo trouxe apenas uma pequena mochila com roupa, o resto foi tudo material, instrumental, medicamento, porque a gente sabe que as pessoas às vezes não têm acesso a coisas consideradas básicas, como uma farmácia, onde você compra lá uma dipirona, ibuprofeno, etc. E aqui é difícil, o acesso para eles é muito restrito, depende do meio fluvial”

A extensa malha territorial de Porto Velho agrava o problema de acesso aos serviços. O município tem 34.090,952 quilômetros quadrados, sendo a maior capital em extensão do país, o que implica deslocamentos que podem chegar a nove a 15 horas nas embarcações usuais ao longo do Rio Madeira, enquanto rotas alternativas por Humaitá exigem combinações de estrada e voadeira levando horas.

A bordo e durante o percurso também são observadas balsas de transporte de cargas e dragas associadas ao garimpo ilegal, elementos que convivem com o trânsito de pequenas embarcações das comunidades.

O venezuelano Luiz Antônio Prado, que vive há nove anos em Glebas, apontou os riscos em caso de emergência pela falta de disponibilidade de transporte. “[Para] quem que mora na beira do rio e tem uma emergência fica difícil. Tem que colocar na voadeira. E nem sempre tem um ‘motorista’”

Ele compareceu à UPA acompanhado da filha Gorete Maria Prado, de 15 anos, que recebeu atendimento por diabetes em situação de gravidade. “Minha glicose estava acima de 600 e eu cheguei e já e me colocaram rapidinho no atendimento, começaram a me tratar”

Além das consultas na UPA, a expedição realizou atendimentos domiciliares para pacientes com mobilidade reduzida, entre eles o ex-seringueiro Manoel Dourado da Silva, de 88 anos, que sofreu acidente vascular cerebral e vive com dificuldade de movimentação do lado direito, edemas nos pés, hipertensão, problemas auditivos e diabetes. A equipe médica avaliou a pressão, forneceu medicação para pressão e diabetes e orientou os cuidadores.

O professor e médico Gabriel Aurélio de Paiva coordenou as ações de saúde a bordo e avaliou o perfil das doenças crônicas detectadas nas comunidades. “O básico que a gente tem mais visto é a famosa diabetes, pressão alta também tem demais, é meio descompensado. Pode ser uma falha de comunicação entre médicos e pacientes, já que muitas das vezes eles têm a receita mas não tomam medicamento, muitas vezes por questão de tradição. Eles acham que apenas tomar um chá vai resolver o problema e só tomam a medicação quando estão passando muito mal. Daí que a gente tem que ficar reforçando a questão do cuidado”

Segundo o professor, a iniciativa também funcionou como campo de formação para estudantes que, antes da saída, participaram de planejamento e simulações sobre a atuação em território ribeirinho. “Para os alunos é uma experiência, enfim, do mundo real. É um mundo real, porque lá no ambulatório eles ficam numa bolha muito grande. Eu orientei eles, disse que a gente faria um atendimento básico, fazer acompanhamento junto com o ACS [agente comunitário de saúde]. E, toda vez que tem essa oportunidade, eu sempre trago eles, para eles verem que tem outra realidade além daquela que eles vivem todo dia”

As equipes combinaram atendimento espontâneo nas proximidades da UPA com ações itinerantes e domiciliares, dentro de uma operação que buscou responder tanto às demandas imediatas quanto a lacunas crônicas no acesso a serviços de saúde nas populações ribeirinhas.

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