Uso excessivo de telas reduz criatividade nas brincadeiras, aponta estudo

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Um estudo da Universidade de São Paulo que acompanhou 14 crianças concluiu que a exposição prolongada a dispositivos digitais favorece um ciclo de perda de criatividade nas brincadeiras, em que o tédio fora da tela exige condução adulta e leva os menores de volta aos aparelhos.

A terapeuta ocupacional Amanda Sposito, orientadora do estudo “Tecnologias digitais moldam o novo brincar infantil”, explica como o uso intensivo de telas interfere na autonomia lúdica das crianças.

“As próprias crianças dizem que têm muita dificuldade de pensar em brincadeiras possíveis de serem feitas quando elas estão fora da tela. Então elas estão cada vez mais dependentes de ter um adulto conduzindo, um adulto propondo as atividades. Seja uma mãe, uma tia, um professor ou um monitor. Então, quanto mais as crianças ficam imersas em tela, menos criatividade elas têm, menos coisas elas conseguem fazer na vida real e isso joga elas de novo pras telas para ocupar o ócio e o tédio”

Mudanças sociais também ajudam a explicar a alteração nas formas de brincar, com menos espaço livre e famílias menores e mais atarefadas.

Amanda Sposito contextualiza esse cenário familiar e urbano.

“Hoje em dia, a gente tem crianças que estão muito presas dentro de casa, porque a gente vive uma situação de insegurança e de perigo nas ruas. E, ao mesmo tempo, dentro de casa, as famílias estão menores e os pais e mães trabalhando muito mais. Então, a gente não tem mais pessoas que desenvolvam o brincar com essas crianças na frequência que era há uma geração atrás. As famílias acabam delegando muito mesmo pras telas ocupar o tempo dessas crianças que estão ociosas e entediadas em casa”

Saúde física e mental

Organizações médicas estabelecem recomendações para limitar o tempo de uso de telas entre menores, com orientações que variam conforme a faixa etária e visam reduzir impactos sobre desenvolvimento cognitivo e bem-estar.

A Organização Mundial da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria indicam cuidados porque o uso excessivo de aparelhos pode provocar interferência no desenvolvimento cognitivo, problemas emocionais, doenças oculares, auditivas e ortopédicas, além de agravar riscos como cyberbullying.

As entidades orientam que os dispositivos não devem ocupar o tempo reservado a atividades básicas, como alimentação e sono, e ressaltam a necessidade de vigiar o conteúdo acessado por menores.

Ferramentas de controle parental são um recurso já adotado por famílias para monitorar e limitar o consumo digital das crianças.

A lojista Edilaine Ferreira relata como administra o tempo de tela da filha e os motivos para acompanhar o que ela assiste.

“Eu costumo deixar entre um hora e meia a duas horas que ela tem tempo de tela depois da escola. Brincando com as amigas, jogando. Tudo que ela quiser dentro desse tempo. Eu acompanho muito ela assim no celular, a tela para ver o que ela tá vendo. Porque a gente já passou por situações de aparecer cenas sexuais. Então assim, eu limito muito”

Projetos que articulam tecnologia e educação aparecem como alternativas para transformar o consumo digital em aprendizado e sociabilidade.

O Gaming Park, criado em 2022, atende jovens entre oito e 17 anos nas comunidades da Rocinha no Rio de Janeiro e em Vitória no Espírito Santo, oferecendo ensino multidisciplinar sobre videogames, ações solidárias e orientação profissional no universo dos esportes eletrônicos.

Dara Coema, coordenadora técnica do projeto, aponta o potencial dos jogos para a formação de competências sociais e educacionais.

“Nós vemos casos no projeto em que os jogos são ponte para a sociabilidade entre jovens e também, para além dos jogos educativos, que já são ferramentas mais reconhecidas, os jogos também são objetos de cultura que podem contar histórias, podem levantar discussões, podem conscientizar. Quando a gente fala, por exemplo, no competitivo, os jogos podem ser meios para passar valores relacionados ao trabalho em equipe, comunicação. É tudo uma questão de consumo crítico e contextualizado”

Dara Coema acrescenta que educação midiática é essencial para equilibrar o uso das telas e responsabilizar plataformas que estimulam consumo excessivo.

“Para as crianças, isso significa dar o caminho das pedras desde cedo, pra gente criar cidadãos do digital que tenham consciência e poder sobre suas escolhas. Direcionar o conteúdo que eles vão consumir, mas também fazê-los entender por que aquele conteúdo é ou não interessante, né? Sobre entender o que é um algoritmo e as armadilhas ali. Falar sobre compartilhamento de dados, conversar sobre fake news. Então, é muito sobre conscientização de todos”

Relatos de memória afetiva ajudam a dimensionar a mudança nas formas de brincar e a necessidade de políticas e práticas que incentivem brincadeiras ativas.

A auxiliar de limpeza Hozana da Silva resgata a infância passada nas ruas e observa a diferença para a rotina dos menores hoje.

“É aproveitar muitas coisas assim. Na rua brincava de pique-bandeira, pique-esconde, jogar bola, queimada. Tudo isso eu aproveitei. Eu não vejo crianças brincando mais. Eu vejo as crianças muito sentadas com a mãe, com o celular na mão”

O conjunto de evidências levantadas pelo estudo, pelas recomendações médicas e pelas experiências de famílias e projetos sociais aponta para a necessidade de limites e educação midiática, sem ignorar o potencial educativo e cultural das plataformas digitais.

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