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Filha de Che Guevara afirma que EUA podem invadir Cuba

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A principal avaliação da médica Aleida Guevara durante a passagem dela pelo Brasil foi a de que a ilha permanece sob ameaça externa direta e imprevisível, o que a motivou a antecipar o retorno a Cuba.

Ao justificar a volta, ela afirmou que precisa estar no país diante do risco que enxerga.

“Não, eu volto nesta sexta-feira [15] porque tenho muita coisa para fazer e, além disso, Cuba está sob ameaça de ataque, e a pior coisa que poderia me acontecer na vida é meu próprio país ser atacado e eu não estar lá. Isso me deixaria louca. Eu preciso estar lá.”

A preocupação com uma possível ação dos Estados Unidos foi reiterada como consequência do que Aleida descreve como imprevisibilidade do presidente norte-americano, o que, segundo ela, impede avaliações racionais do risco.

“Sabemos que podem nos atacar a qualquer momento porque são loucos. Esperemos que a loucura não chegue ao extremo e que eles se deem conta do tipo de inimigos que realmente podemos ser. Porque Fidel disse: ‘Quando um povo enérgico e viril chora, a injustiça treme'”

Bloqueio, energia e impacto social

A experiência cotidiana na ilha, conforme relatado por Aleida, inclui efeitos diretos do bloqueio econômico e energético, que em determinado período deixou Cuba sem receber petróleo por três meses.

“No momento, não temos apagões, mas sim fornecimento intermitente de energia, horas de luz. E, nas províncias, há cidades que ficaram 72 horas sem eletricidade. E me diga, como se conserva comida nessa situação?”

Ela avaliou que o bloqueio visa enfraquecer a fidelidade ao governo, mas disse também que, na prática, o efeito costuma reforçar a unidade entre os cubanos.

“Sempre haverá algum idiota que acredita nessa história, mas a maioria da população – felizmente – sabe perfeitamente quem é seu inimigo.”

A médica apontou que até mesmo setores contrários à Revolução em Miami têm mudado de posição ao perceberem o impacto do bloqueio sobre familiares, com falta de gasolina e medicamentos afetando até quem tem recursos financeiros.

Solidariedade internacional e apoio

Aleida destacou reações imediatas de solidariedade de movimentos e da sociedade civil, lembrando iniciativas educacionais e envio de suprimentos por grupos estrangeiros.

“Foi imediata. A ideia de que semeamos solidariedade é verdadeira. Tudo começou com a Escola Latino-Americana de Medicina [Elam], onde demos a muitos latino-americanos a oportunidade de se tornarem médicos em Cuba gratuitamente.”

Ela citou remessas de medicamentos enviadas por formados na Elam e ações de sindicatos brasileiros, apontando que o apoio popular costuma ser mais consistente do que o oferecido por governos.

De acordo com informações fornecidas por Aleida, governos que demonstraram apoio recente incluem o mexicano, com envios de alimentos, enquanto a Rússia teria enviado um navio com petróleo apesar da guerra na Ucrânia, a China perdoou dívida e brigadas italianas organizaram coleta de remédios e alimentos.

Segundo Aleida, esse quadro reforça a rede de ajuda que ameniza, ainda que temporariamente, os efeitos do bloqueio sobre saúde e alimentação na ilha.

Com 65 anos, a médica disse observar que a maioria dos cubanos permanece fiel aos princípios da Revolução de 1959 e que o sentimento de identidade nacional se reflete em solidariedade interna e na percepção histórica dos vizinhos regionais.

“Quando bate aquele cansaço de toda essa situação, acontece de os Estados Unidos dizerem algum absurdo, que provoca uma reação nas pessoas.”

Ela também mencionou comparações regionais e históricas para explicar a resistência cubana, referindo-se a exemplos como Haiti e Porto Rico, e criticou a atuação americana em desastres posteriores como fator formador dessa percepção.

“A França tem vários territórios que chamam de ‘ultramarinos’, que são suas colônias. Eles não buscam a independência porque têm medo de passar com eles o que passou com o Haiti, que foi o primeiro país livre da América Latina e sofreu um duro cerco e bloqueio das potências europeias por sua ousadia.”

Ela avaliou que o bloqueio tem também função de servir como exemplo para desencorajar outras nações a optar por modelos socialistas.

“O bloqueio é para que nenhum outro país se atreva a virar socialista. Para que sirva de exemplo para as demais nações.”

Sobre a percepção internacional, Aleida disse que a solidariedade popular é mais valiosa e sustentável que o apoio estatal, que sofre limitações por interesses políticos e econômicos.

“Governos são mais complicados. Eles vêm e vão, mas o povo sempre é o mesmo. E o que nos interessa é a solidariedade do povo.”

Por fim, ela comentou aspectos pessoais e de memória familiar ligados à Revolução e à figura do pai, Ernesto Che Guevara, e descreveu a educação recebida da mãe como central para a formação dela e dos irmãos.

“Tive pouco contato com meu pai, mas tenho uma mãe espetacular [Aleida March, viúva de Che] que me ensinou a amá-lo, conhecê-lo e admirá-lo. Se hoje sou uma mulher socialmente útil, é graças à educação que recebi dela.

Minha mãe é de origem camponesa com uma formação acadêmica extraordinária. Ela foi combatente da resistência na clandestinidade e, mais tarde, do Exército rebelde. Estudou história, além da formação em pedagogia que já possuía e é cubana de corpo e alma.

Ela ficou sozinha muito cedo com quatro filhos pequenos. Quando um camarada morre, como meu pai, os outros camaradas tentam aliviar a pressão com ajuda material. Mas minha mãe não permitia que recebêssemos nada a mais que as outras famílias recebiam, devido à quantidade de suprimentos que existia em Cuba.

Isso porque ela seguiu as instruções do meu pai. Nós comíamos o que todos em Cuba comiam. Não tínhamos privilégios. Mas fomos privilegiados por ter o carinho e a admiração do povo cubano, por receber esse calor humano.

Nesse aspecto, você percebe que meu pai ainda está muito vivo para o povo, eles o mantêm muito presente, e isso, para uma filha, é extraordinário. Nós não desfrutamos dele, mas, mesmo assim, ele está lá. A presença dele é muito forte em Cuba, principalmente nas crianças.”

O conjunto das declarações foi concedido à Agência Brasil durante eventos em que Aleida participou no interior de Minas Gerais, com referências diretas a movimentos sociais, atos de solidariedade e à situação interna de energia e abastecimento em Cuba.

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