Lula diz que o mundo não autoriza Trump a ameaçar outros países

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Ao avaliar a conduta do governo dos Estados Unidos em relação a países que discordam de sua política externa, o presidente ressaltou limites para ações unilaterais. “O Trump não tem o direito de acordar de manhã e achar que pode ameaçar um país. Não tem direito. Ele não foi eleito para isso. O mundo não lhe dá direito disso. A Constituição americana não garante isso. E muito menos a carta da ONU [Nações Unidas]”. A declaração foi feita em entrevista exclusiva ao jornal espanhol El País publicada nesta quinta-feira, dia 16, em que Lula abordou ameaças recentes, incluindo a menção a um crime de genocídio contra o Irã feita por Trump na semana anterior.

Ao tratar da soberania como princípio basilar das relações internacionais, o presidente brasileiro reiterou o respeito à integridade territorial alheia. “Nenhum país tem direito de ferir a integridade territorial de outro país. Nenhum país tem o direito de não respeitar a soberania dos outros países”. Em seguida, ele defendeu responsabilidade ampliada dos países mais poderosos na preservação da paz global.

Sobre a necessidade de liderança mundial responsável, Lula fez um apelo para que Estados influentes priorizem a paz. “Por mais importante que seja esse país, é importante que os maiores tenham mais responsabilidade de manter a paz no mundo”. O presidente associa essa postura à prevenção de escaladas que possam atingir proporções globais.

Ao comentar o risco de uma conflagração maior a partir de intervenções externas, Lula advertiu para o potencial destrutivo de um conflito global. “Uma terceira guerra mundial será uma tragédia dez vezes mais potente do que foi a tragédia da Segunda Guerra Mundial”. Ele completou o alerta ao tratar da continuidade de ações militares e ameaças.

Na hipótese de manutenção de práticas agressivas por atores estatais, Lula apontou a possibilidade concreta do pior cenário. “se continuarem achando que podem levantar de manhã e atirar contra qualquer um, ela pode acontecer”. A frase foi usada para vincular políticas de pressão e intervenções ao risco de escalada internacional.

Cuba

Ao abordar a política dos Estados Unidos para a ilha caribenha, o presidente classificou como incompreensível a duração das restrições e relacionou a questão a preocupações humanitárias. “Não tem explicação um bloqueio durante 70 anos. Ou seja, se as pessoas que não gostam de Cuba, que não gostam do regime cubano, têm uma preocupação com o povo cubano, por que essas pessoas não têm uma preocupação com Haiti? Que não tem o regime comunista, por que não tem?”. Lula afirmou que Cuba é um parceiro valioso para o Brasil e que o país precisa de condições para melhorar a situação interna.

Ao enfatizar os efeitos práticos do cerco sobre a população, o presidente questionou a lógica de privar um país de insumos básicos. “Como é que pode sobreviver um país que está comprometido a não receber alimento, a não receber combustível, a não receber energia?”. A crítica foi apresentada em meio ao debate sobre endurecimento do bloqueio energético a Cuba.

Venezuela e comércio com os Estados Unidos

Em relação à Venezuela, Lula registrou a posição do governo brasileiro sobre o processo eleitoral que deveria ocorrer em julho de 2024 e a necessidade de aceitação do resultado para restabelecer a normalidade. “pudesse voltar a ter paz” foi citada na avaliação sobre o desfecho desejado para o país vizinho. O presidente também advertiu contra a tentativa de ingerência direta de Washington nos assuntos internos venezuelanos.

Ao delimitar essa crítica, Lula afirmou que não cabe aos Estados Unidos administrar a Venezuela. “[O que não dá é] os EUA acharem que eles podem administrar a Venezuela”. A colocação foi apresentada como parte de uma defesa da soberania regional.

Sobre a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, o presidente resgatou o diálogo bilateral e a necessidade de agir como chefe de Estado em defesa de interesses nacionais. “Eu nunca pedirei para ele concordar ideologicamente comigo, como eu também não concordo com ele. Dois chefes de Estado não têm que pensar ideologicamente. Eu tenho que pensar como chefe de Estado. Quais são os interesses do meu país com relação aos Estados Unidos e quais são os interesses deles com relação ao meu país?”. Lula lembrou negociações entre Brasília e Washington realizadas em novembro de 2025 que resultaram na retirada de tarifas de 40% sobre uma série de produtos brasileiros e mencionou decisão da Suprema Corte norte-americana em fevereiro deste ano que derrubou o tarifação imposta por Trump a dezenas de países, atendendo a pedido de empresas estadunidenses afetadas.

Ao longo da entrevista, o presidente articulou críticas às ações externas de Washington em diferentes frentes e pediu maior responsabilidade das potências para evitar a erosão da ordem internacional, concluindo suas observações sem projeções finais sobre medidas concretas a serem adotadas por outros governos.

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