Tenente-coronel preso por matar esposa acumulava denúncias de assédio na PM com punição branda

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O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto está preso sob a acusação de atirar na cabeça da própria esposa em fevereiro deste ano. Antes do crime contra a soldado Gisele Alves Santana, o oficial da Polícia Militar de São Paulo já somava um histórico de 17 anos de denúncias envolvendo assédio e violência contra mulheres da corporação.

Documentos da ficha funcional do militar revelam pelo menos quatro episódios graves ao longo de sua carreira. Apesar da abertura de três sindicâncias internas, a única sanção aplicada ao tenente-coronel foi um dia de detenção disciplinar que o obrigou a permanecer 24 horas em uma unidade policial.

A punição solitária ocorreu em 2022 devido a transferências sem justificativa legal de quatro policiais femininas. A investigação interna concluiu que a decisão foi motivada por suspeitas de que as subordinadas comentavam sobre o relacionamento dele com Gisele, havendo ainda ameaças contra outras mulheres na mesma época.

Transferências arbitrárias configuram uma violência institucional comum praticada por chefes contra mulheres nas forças de segurança, segundo a diretora da Associação Nacional das Mulheres Policiais do Brasil, Inara Amorim. “As penas são extremamente brandas para coibir práticas dos algozes”.

O assassinato de Gisele aconteceu no apartamento do casal na região central da capital paulista. Depoimentos prestados à Polícia Civil indicam que a vítima já sofria agressões físicas dentro do próprio Comando-Geral da PM antes mesmo do casamento ocorrido em 2024, quando colegas presenciaram o oficial pressionando a soldado contra a parede.

Quatro testemunhas confirmaram ter conhecimento das brigas graves no ambiente militar. A ficha funcional do acusado não registra nenhuma investigação interna sobre essas violências específicas contra a esposa, com o caso ganhando visibilidade apenas após a morte da soldado.

Uma nova denúncia chegou ao Ministério Público após o feminicídio relatando assédio sexual por parte do tenente-coronel entre julho e novembro do ano passado. O oficial tentou beijar uma policial à força no local de trabalho e usava sua patente para criar situações em que ficassem sozinhos.

A recusa às investidas resultou na transferência da vítima para uma unidade distante de sua residência, reforçando o clima de intimidação identificado pelo advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Júnior. “Recebi pelo menos dez relatos de pessoas que têm medo de trazer isso a público”.

O histórico de constrangimentos inclui uma condenação judicial em que o estado precisou pagar indenização de R$ 5.000 a uma sargento hostilizada. Fora do ambiente militar, a ex-mulher de Neto registrou boletins de ocorrência entre 2009 e 2010 em Taubaté para denunciar ameaças, perseguições e descumprimento de ordens judiciais.

A Secretaria da Segurança Pública informou que o militar passará por um Conselho de Justificação com possibilidade de expulsão da corporação. A defesa do tenente-coronel nega conhecimento sobre as agressões contra Gisele e alega que informações privadas foram divulgadas fora de contexto para atingir a honra do cliente.

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