Três espécies do Pantanal podem ganhar proteção internacional durante a COP 15
Conferência em Campo Grande debate na próxima quinta-feira a proteção internacional da ariranha, caboclinho-do-pantanal e pintado, espécies ameaçadas do bioma
Três animais que habitam o Pantanal estão pautados para receber proteção internacional, com a possível inclusão nos apêndices da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). A decisão sobre a ariranha, o caboclinho-do-pantanal e o pintado está agendada para análise na próxima quinta-feira, 26 de março, durante a 15ª Reunião da Conferência das Partes (COP15), que acontece no Bosque Expo, em Campo Grande.
A reunião vai avaliar a incorporação de um total de 42 novas espécies nos apêndices I e II da CMS, designados para animais em perigo de extinção ou que demandam cooperação internacional para sua preservação.
A França é a proponente da inclusão da ariranha no apêndice I da convenção. A espécie, que foi integrada à lista de animais ameaçados da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) em 1999, enfrenta inúmeras ameaças, como poluição, pesca excessiva, conflitos com pescadores, rodovias e barragens hidrelétricas.
Estima-se que no Pantanal, abrangendo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, exista a maior população de ariranhas do país, com cerca de 3.950 indivíduos de um total de 4.659 em território nacional.
A proposta francesa detalha que “Sua preferência por áreas úmidas de planície, rios e lagos faz com que seu habitat principal coincida totalmente com as demandas humanas (minas de ouro, pesca, desmatamento, mega-infraestruturas e projetos energéticos, assentamentos, transporte, turismo, etc.)”, além das mudanças climáticas, cita a proposta francesa, visto que o Brasil sofreu com graves secas recentemente.
O desmatamento em larga escala na Amazônia, outro habitat da espécie, agrava a situação. A ariranha percorre longas distâncias, com seu habitat se estendendo pelo Pantanal e Amazonas no Brasil, e alcançando a Bacia do Orinoco, que compreende Venezuela, Colômbia, Brasil, Bolívia, Peru, Equador e Guiana Francesa.
O caboclinho-do-pantanal tem sua inclusão proposta pelo Brasil e Argentina no apêndice II. Esta ave migratória atravessa um vasto território entre os dois países, além de Paraguai e Bolívia, e utiliza o Pantanal brasileiro entre outubro e março, período que se acredita ser para reprodução. A inclusão da espécie na CMS trará maior visibilidade, impulsionando o conhecimento científico, a compreensão da dinâmica populacional e das ameaças, além de melhorar seu estado de conservação.
A proposta também ressalta que “inclusão de uma espécie que carrega os nomes de Iberá e Pantanal, durante uma COP realizada no Pantanal brasileiro, pode ajudar a direcionar a atenção e os esforços de preservação não apenas para a espécie, mas também para todos os seus habitats em áreas úmidas nos países onde ela ocorre”.
O pintado, com proposição brasileira para o anexo II, foi reconhecido como espécie ameaçada por Portaria do Ministério do Meio Ambiente em julho de 2022 e classificado como vulnerável pela UICN. Sua distribuição abrange as bacias dos rios São Francisco e da Prata, incluindo as sub-bacias dos rios Paraná-Paraguai e Uruguai, presentes nos territórios da Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. As ameaças enfrentadas por esta espécie são uma combinação de pressões ambientais e humanas que afetam seu ciclo de vida migratório.
Entre as principais ameaças ao pintado estão a fragmentação dos rios por barragens hidrelétricas, que impedem o acesso a áreas de desova e alteram os pulsos naturais de cheia e seca. A pesca excessiva, seja artesanal, comercial ou esportiva, a perda dos berçários naturais devido à drenagem de lagoas marginais e os riscos genéticos, como a consanguinidade em populações isoladas e a hibridização com espécies de cativeiro que escapam para os rios, também são preocupações.
A alteração do pulso de inundação interfere nas rotas migratórias e compromete o ciclo reprodutivo. A expectativa é que a inclusão do pintado facilite a mobilização de recursos, o acesso a financiamento internacional e o intercâmbio de dados de monitoramento e pesquisa entre os países envolvidos.

