Mulheres impulsionam perícias em Mato Grosso do Sul
Atuação feminina é fundamental em todas as fases da investigação científica no estado
Mulheres desempenham um papel central e abrangente em diversas etapas da atividade pericial na Polícia Científica de Mato Grosso do Sul, desde o atendimento inicial em locais de ocorrência até complexas análises laboratoriais e exames médico-legais. Elas representam aproximadamente 40% do efetivo da instituição, comprovando uma presença significativa e especializada na produção de provas técnicas essenciais para a justiça.
O trabalho técnico começa diretamente no local dos fatos, antes mesmo de qualquer exame médico ser realizado ou uma identificação ser confirmada. É neste ambiente que os vestígios são cuidadosamente identificados, registrados e preservados, fornecendo a base para as investigações e orientando os exames subsequentes.
A preservação da área é uma preocupação primordial para a equipe. Karla Gonçalves da Cruz, perita criminal com mais de 11 anos de atuação no Núcleo de Perícias Externas, no setor de Crimes Contra a Vida em Campo Grande, explica que seu foco inicial é identificar a região com vestígios e garantir que esteja isolada e íntegra.
Ela enfatiza que essa cautela é crucial para manter a autenticidade dos elementos encontrados. Segundo a perita, que também já trabalhou em Corumbá e no Departamento de Apoio às Unidades Regionais, a avaliação no local exige atenção minuciosa, pois a relevância de cada elemento nem sempre é clara no momento da coleta. “Em muitos casos há grande quantidade de elementos no local e naquele momento ainda não é possível identificar completamente o que é relevante. Por isso é essencial realizar um levantamento detalhado e minucioso”, ela disse.
Parte dos materiais coletados é encaminhada para análises especializadas em laboratórios da Polícia Científica, onde outras peritas e peritos criminais atuam em áreas como DNA, documentoscopia e balística.
Exames especializados e a busca por identidade
Na área da medicina legal, os exames são decisivos para esclarecer as circunstâncias de diversas ocorrências. Taís Cristina Zottis Barsaglini, perita médica-legista que atua há três anos no Instituto de Medicina e Odontologia Legal e na Casa da Mulher Brasileira, aponta a relevância de sua área na geração de provas. “O exame médico-legal traz clareza e materialidade sobre os fatos.
Ele pode documentar casos de violência física, sexual ou ainda esclarecer a causa de óbitos violentos, como acidentes de trânsito ou homicídios.” As conclusões são formalizadas em laudos técnicos, elaborados com base em evidências científicas.
“Um laudo tecnicamente fundamentado reúne todas as conclusões com base em evidências e respeitando o passo a passo pericial para que seja confiável”, afirmou. Mesmo diante de situações desafiadoras, Taís Barsaglini mantém o foco no rigor técnico, embora reconheça o impacto emocional de algumas situações de violência e vulnerabilidade humana.
A papiloscopia também desempenha um papel fundamental na produção de provas. Juliana Cardozo da Silva, perita papiloscopista que ingressou na instituição em 2015, com passagens por Dourados e Campo Grande, ressalta que seu trabalho vai além da emissão de documentos.
“Ele garante a existência civil da pessoa, assegura direitos e a situa perante a sociedade. É por meio dele que alguém passa a ter nome, registro, acesso a serviços e reconhecimento legal.” No contexto criminal, a papiloscopia envolve o levantamento de impressões digitais em cenas de crime, contribuindo para identificar envolvidos. “Confirmar uma identidade pode inocentar alguém, esclarecer um crime ou permitir que uma família encerre um ciclo de dor. Por trás de cada impressão digital existe uma história”, ela explicou. Segundo Juliana, a análise exige atenção rigorosa a detalhes mínimos, muitas vezes trabalhando com fragmentos diminutos que demandam comparação precisa. “Observamos linhas, pontos característicos e pequenas bifurcações que são únicas em cada pessoa. É um trabalho que não permite pressa.” Os vestígios papiloscópicos coletados podem ainda gerar desdobramentos para análises complementares em núcleos especializados.
Nos bastidores dos exames necroscópicos, a agente de Polícia Científica Romilda Fleitas, com uma década de experiência, acompanha diversas etapas.
“Quando o corpo chega aqui, a gente faz toda a recepção, confere a requisição, a cadeia de custódia e verifica se houve atendimento anterior em unidade de saúde ou pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).”
Ela também auxilia o médico-legista e é responsável pela liberação do corpo à funerária, sempre com autorização familiar. Romilda Fleitas destaca a rotina que envolve contato com familiares em momentos delicados.
“Às vezes a família chega aqui em uma situação muito difícil e precisa entender que alguns exames são necessários. É um trabalho que exige responsabilidade e respeito com cada caso que chega até nós.” Ela considera sua função uma peça essencial na engrenagem, onde cada parte contribui para o resultado final do trabalho técnico.
Desde a coleta de vestígios em locais de crime até as análises laboratoriais e os exames médico-legais, essas profissionais integram diferentes fases da atividade pericial, contribuindo para o esclarecimento de fatos e a formação de provas usadas pela justiça.

