Policiais civis de São Paulo são presos suspeitos de receber propina em hangar e destruir provas
Ação conjunta entre Ministério Público e Polícia Federal cumpriu mandados de prisão contra agentes acusados de atrapalhar investigações e negociar vantagens indevidas
Um esquema de corrupção instalado dentro da Polícia Civil de São Paulo utilizava a estrutura da própria corporação para beneficiar criminosos em troca de pagamentos. As investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e pela Polícia Federal revelaram que agentes cobravam propina para travar o andamento de inquéritos, destruir evidências e criar versões falsas em processos. A operação deflagrada nesta quinta-feira (5) resultou no cumprimento de 11 mandados de prisão.
Os policiais entraram na mira das autoridades após a constatação de que investigações sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas não avançavam. O grupo atuava para garantir que esses casos ficassem parados ou fossem arquivados mediante pagamento. Entre os detidos estão quatro policiais civis, sendo um delegado, um escrivão e dois investigadores, além de um advogado. Figuras conhecidas da Operação Lava Jato, como a contadora Meire Poza e o doleiro Leonardo Meirelles, também foram alvo da ação.
Pagamentos no hangar da corporação
A audácia do grupo chamou a atenção dos investigadores pelo uso de instalações oficiais para o recebimento de valores ilícitos. O policial Rogério Coichev Teixeira, membro de uma unidade de elite e apontado como intermediário da organização, foi flagrado em mensagens tratando criminosos com intimidade. Em um dos episódios monitorados, ele recebeu R$ 50 mil em espécie dentro do hangar da Polícia Civil no Campo de Marte.
Diálogos interceptados mostram que Coichev reclamou quando um pagamento veio abaixo do combinado. Ao receber R$ 40 mil em vez do valor total, ele questionou se o restante seria entregue no dia seguinte, pois precisava repassar a quantia. A justificativa era que ele ficou de levar o dinheiro para os meninos, em referência aos outros agentes envolvidos no esquema de divisão de propina.
Inquéritos de gaveta e pressão financeira
O delegado João Eduardo da Silva e um escrivão do 16º Distrito Policial, na Vila Clementino, também foram presos sob suspeita de manipular procedimentos. A apuração indica que Silva abriu um inquérito de extorsão em 2022 apenas para pressionar uma organização suspeita de lavagem de dinheiro. Ele chegou a solicitar relatórios de inteligência financeira ao Coaf, mas nunca anexou os documentos aos autos oficiais.
Esses relatórios serviam como ferramenta de chantagem para aumentar as chances de recebimento de vantagem indevida. O valor acertado nesse caso específico foi de R$ 100 mil. O advogado Guilherme Sacomano Nasser, identificado como o elo nessa negociação, referia-se ao delegado como um grande parceiro nas conversas interceptadas.
Destruição e troca de provas
As irregularidades teriam começado ainda em 2022 com a cooptação de policiais para a substituição de provas materiais. Integrantes do esquema combinaram a troca de um disco rígido (HD) que havia sido apreendido em uma operação contra lavagem de dinheiro. O advogado Marlon Antonio Fontana, preso na operação, é apontado como o responsável por intermediar essa manobra e orientar pagamentos de R$ 30 mil aos agentes.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) informou que a Corregedoria da Polícia Civil auxiliou nas diligências e que medidas rigorosas serão tomadas. “A Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades”.

