Menopausa é tema de estudo que pede políticas públicas no Brasil

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Um estudo divulgado nessa terça-feira pelo Instituto Esfera, em Brasília, conclui que o Brasil carece de políticas públicas específicas para enfrentar os impactos da menopausa sobre a saúde, o trabalho e a economia familiar, com atenção especial a mulheres negras e residentes em comunidades desassistidas. No documento constam estimativas que indicam 29 milhões de brasileiras nessa fase da vida, 87,9% delas com sintomas e apenas 22,4% buscando tratamento, além de custos econômicos medidos internacionalmente em US$ 26,6 bilhões ao ano nos Estados Unidos e US$ 150 bilhões globalmente.

Vulnerabilidade e biologia

Clarita Costa Maia, pesquisadora e uma das responsáveis pelo estudo, ressaltou o cruzamento entre fatores biológicos e sociais que agravam a experiência da menopausa para determinados grupos. “O que constatamos é que a menopausa tem um componente biológico que atinge mais as mulheres negras e há o cruzamento de vulnerabilidades. São mulheres que sentem a menopausa com mais peso, biologicamente e socialmente falando”

A análise aponta que essa sobreposição de vulnerabilidades coloca muitas mulheres em situação precária no mercado de trabalho e na estrutura familiar, ampliando riscos sociais e econômicos.

Consequências no trabalho e na saúde mental

O estudo descreve como sintomas físicos e psicológicos sem tratamento podem comprometer a continuidade laboral e afetar todo o núcleo familiar, provocando reflexos previdenciários e sociais que pressionam o sistema público. Clarita Costa Maia contextualizou a fragilidade ocupacional dessas mulheres e sua posição na família. “Ela é, em regra, o arrimo de família e líder familiar. São mulheres que ficam numa posição muito frágil no mercado de trabalho”

Os riscos à saúde mental também foram enfatizados pela equipe responsável pela pesquisa, que contou com a participação da médica Fabiane Berta de Sousa. A relação entre sintomas não tratados e doenças crônicas foi destacada como um problema de longo prazo. “Aumentam significativamente as chances de desenvolvimento de Alzheimer, de depressão e diversas outras consequências relacionais advindas disso”

O documento ainda chama atenção para a ocorrência de menopausa precoce, atribuída em parte a fatores do estilo de vida contemporâneo, e para a necessidade de maior atenção das redes públicas diante do envelhecimento populacional. Sobre as oscilações emocionais e suas repercussões pessoais, a pesquisadora registrou uma observação sobre a complexidade do período. “São fases complicadas, de altos e baixos emocionais. Pode haver rupturas em nível pessoal das quais a pessoa precisa se recuperar com o tempo e não está entendendo o que ocorre consigo mesma”

Em relação ao impacto sobre a Previdência e a produtividade, o estudo alerta para custos adicionais quando mulheres são afastadas do trabalho. A pesquisadora sintetizou a consequência coletiva desse quadro. “Ao invés de estarmos com trabalhadoras na sua melhor fase intelectual, surgem mais problemas previdenciários e sociais”

O relatório defende a realização de um mapeamento nacional para dimensionar a realidade brasileira e orientar intervenções públicas adequadas, argumentando que a ausência de uma política estruturada não é neutra. “A ausência de política pública nacional estruturada para a menopausa não é neutra. Produz efeitos concretos sobre a saúde, a economia e a cidadania de milhões de mulheres, com custos que se projetam sobre o sistema de saúde, a Previdência Social e a produtividade nacional”

O documento reforça que o reconhecimento da menopausa como tema de política pública não equivale à patologização do envelhecimento feminino, mas sim ao reconhecimento de uma etapa de vida que exige cuidados e proteção institucional. “A magnitude do problema é proporcional à sua invisibilidade. Tratar a menopausa como política pública não significa patologizar o envelhecimento feminino, mas reconhecê-lo como etapa legítima do ciclo de vida que demanda cuidado, informação e proteção institucional”

O lançamento do estudo em Brasília incluiu premiação de “mulheres exponenciais” e contou com a participação de representantes do Ministério da Saúde. Ana Estela Haddad, secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério, avaliou que há sinais recentes de maior atenção à prevenção da saúde da mulher com o envelhecimento. “Essas questões das fases do ciclo de vida feminino também se colocam em outra direção. Recentemente, tivemos um fórum de mulheres criado pelo Ministério da Saúde e é interessante que o grupo que representava as mulheres na menopausa foi um dos mais ativos”

O estudo conclui com a recomendação de que políticas públicas considerem que tratar a menopausa é também proteger o núcleo familiar e preservar a capacidade produtiva e previdenciária do país, pedindo ações integradas de informação, atendimento e mapeamento para orientar medidas nacionais.

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