Atuação de coroinha com síndrome de Down motiva práticas inclusivas em paróquias
A rotina das celebrações religiosas na região de Piracicaba, interior de São Paulo, passa por uma transformação voltada à acessibilidade e ao acolhimento. O desempenho de Miguel Lopes, um garoto de 11 anos com síndrome de Down, como coroinha na paróquia Santa Rosa de Lima motivou autoridades eclesiásticas a reverem métodos de formação. A iniciativa resultou na capacitação de catequistas para lidar com deficiências e na adaptação de materiais didáticos, visando integrar plenamente fiéis com diferentes perfis cognitivos e sensoriais.
O movimento de inclusão ganhou força após o menino manifestar o desejo de participar ativamente das missas logo após concluir a catequese. O padre Edvaldo Nascimento, responsável pela comunidade, agiu para viabilizar o pedido mediante ajustes práticos e treinamentos que abrangeram também noções sobre autismo. O sacerdote observa que a mudança na postura da igreja reflete uma nova compreensão sobre o papel das pessoas com deficiência na vida comunitária. “É muito possível que, na liturgia, bem como nos trabalhos pastorais, haja espaço para um protagonismo capaz, inclusive, de gerar nos fiéis todos, maior compreensão daquela exigência fundamental de Jesus no Evangelho: amai-vos uns aos outros”.
A repercussão do trabalho de Miguel ultrapassou os limites da paróquia local e influenciou diretrizes em cidades vizinhas. Orientações foram repassadas a outras igrejas para que promovam catequeses inclusivas e estejam preparadas para receber crianças com diversidades físicas e intelectuais. Tássia de Carvalho Lopes, mãe do coroinha, relata que houve resistência inicial causada pelo desconhecimento, mas que optou por focar na busca por espaços onde o filho pudesse exercer sua fé. “Não procuro o preconceito. Ele existe, mas eu não preciso ficar atrás dele. Procuro as brechas, busco as oportunidades para o Miguel. Não nego que houve resistência, no começo, para que ele se tornasse coroinha, mais pelo desconhecimento do que por qualquer outra coisa”.
Nas redes sociais, registros do garoto desempenhando suas funções litúrgicas acumulam milhares de visualizações e geram comoção entre os internautas. O público se surpreende com a autonomia e a devoção demonstradas durante os ritos, como os momentos de oração e comunhão. A família destaca que a participação ocorre sem pressões e respeita o ritmo da criança, que também mantém uma rotina com escola, terapias e trabalhos como modelo publicitário. “Todo domingo vamos à missa, a não ser que aconteça outro evento que não podemos faltar. Mas o Miguel tem sua rotina de escola, de terapias. É uma criança comum. Ele, às vezes, recolhe o cesto de ofertas e fala ‘amém’, em agradecimento”.

