Morador enterra familiar e retoma buscas por irmã soterrada em Juiz de Fora
A rotina de luto e esperança se mistura de forma caótica para os moradores do Parque Jardim Burnier, área devastada pelas chuvas em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira. Clayton Garcia enfrentou uma dura realidade nesta quarta-feira (25) ao deixar momentaneamente as buscas por sua irmã, soterrada desde o início da semana, para comparecer ao sepultamento de outro familiar no cemitério local.
O morador descreveu o cenário de confusão mental e física que atinge a comunidade, onde mais de uma dezena de residências foram destruídas. “Minha vida está um caos. Vim no enterro, enterramos um aqui e já estou voltando para buscar mais gente. Está todo mundo desorientado, ninguém sabe o que fazer”.
O Cemitério Municipal Nossa Senhora Aparecida concentrou a dor das famílias atingidas, realizando o enterro de dez vítimas dos deslizamentos apenas na manhã de quarta-feira. A previsão era de que outros dez sepultamentos ocorressem ao longo do dia. Mesmo exaustos, parentes e vizinhos se dividem entre as despedidas e o auxílio nos resgates, na tentativa de localizar sobreviventes.
Vítimas incluem crianças e idosos
Entre os mortos identificados estão menores de idade, como Melissa Garcia, de 12 anos, e Bernardo Lopes Dutra, de 11. O menino, que treinava no Centro de Futebol Zico (CFZ), era conhecido pelo apelido de “Tomatinho” e mantinha uma relação próxima com seu treinador, Alison Erculano.
O técnico recordou a trajetória esportiva e a personalidade do garoto. “Mudei a posição em que ele jogava, de ponta, e o coloquei de centroavante. Foi artilheiro, fez quatro gols em uma final de futsal e gol em final de futebol de campo. Tomatinho era o apelido dele. Era um jogador que não pipocava, gostava de jogo grande. Garoto com muito carisma, muito humilde, pelo qual todo mundo tinha um carinho muito grande”.
Outros bairros também registraram fatalidades, como o bairro de Lourdes, onde Neusa de Paula Santos, de 69 anos, faleceu soterrada. Seu marido, Marcos Maurício dos Santos, relatou que a esposa morreu em um momento de oração. O casal estava junto há quase quatro décadas.
O viúvo destacou a rapidez do incidente e a solidariedade recebida. “Minha esposa se foi rezando. Me sinto triste pela perda, mas feliz por ter vivido tanto tempo com ela, nós tínhamos quase 40 anos de casados. Foi uma situação repentina, de uma hora pra outra. Mas o apoio dos amigos e dos amigos do meu filho tem me ajudado muito”.
Moradores apontam obras como causa
A instabilidade do solo na região é atribuída por residentes a intervenções recentes na infraestrutura urbana. Flaviano Costa Luz, que vive no bairro há 43 anos, indicou que os problemas geológicos coincidiram com a abertura de uma nova via no local.
Para o morador antigo, a conexão entre a obra e o desastre é clara. “Foi fazer essa rua aconteceu esse fato, derrubando 12 casas. Nessa tragédia, perdi amigos, familiares e vizinhos”.

