Levantamento registra que 73% dos imigrantes detidos nos EUA não têm antecedentes
Uma análise do Transactional Records Access Clearinghouse, da Universidade de Syracuse, aponta que 73% dos 68 mil imigrantes detidos nos Estados Unidos ao final de 2025 não tinham antecedentes criminais.
O próprio levantamento ressalta o perfil de parte das condenações entre os detidos e aponta que muitos dos casos não envolvem crimes graves. “Muitos dos condenados cometeram apenas delitos menores, incluindo infrações de trânsito”.
Na versão pública do governo, as operações do Serviço de Alfândega e Imigração são justificadas como ações contra indivíduos que ameaçariam a segurança pública estadunidense, citando a detenção de “criminosos”.
Organizações que atuam em defesa dos migrantes descrevem um aumento abrupto nas prisões sob o segundo mandato do presidente Donald Trump, com impactos nas possibilidades de regularização e no direito ao devido processo.
O Conselho Americano de Imigração calculou que a prisão de imigrantes sem antecedentes criminais cresceu 2.450% no período em que o governo Trump ampliou prioridades de fiscalização.
A entidade também reporta que a detenção ampliada tem sido usada para pressionar a saída imediata do país, detalhando mudanças na proporção entre liberação e deportação. “Em novembro de 2025, para cada pessoa liberada da detenção do ICE enquanto aguardava uma audiência, 14,3 pessoas foram deportadas diretamente, um aumento em relação à proporção de 1,6 em dezembro de 2024”.
Dados do mesmo conselho apontam que o número total de pessoas sob custódia do ICE subiu de cerca de 40 mil para 68 mil, um incremento de 75%, com projeções de atingir 100 mil detidos no início de 2026.
A organização alerta que medidas massivas de aprisionamento e mudanças nas políticas internas reduziram a possibilidade de liberdade provisória. “prisões em massa” e quedas nas liberações discricionárias foram registradas, e “De janeiro a 29 de novembro [de 2025], as liberações discricionárias da detenção caíram 87%”.
O relatório também destaca o papel do setor privado no crescimento da capacidade de encarceramento, observando que a quase totalidade das vagas de detenção está em instalações terceirizadas. “No início de 2025, aproximadamente 90% das pessoas detidas pelo ICE estavam em instalações de propriedade ou operadas por empresas de prisões privadas. O próprio ICE opera apenas um número limitado de instalações. O aumento da detenção sob o governo do presidente Trump tem sido uma bênção para essas empresas”.
Fontes judiciais e acadêmicas têm documentado irregularidades nos procedimentos de prisão em algumas localidades, um cenário que aumenta a preocupação sobre violações de direitos durante ações de fiscalização.
O professor emérito James N. Green, da Universidade de Brown, contextualiza falhas relatadas em tribunais. “Eles não podem parar uma pessoa e prendê-la se a pessoa não assumir que não está regular no país. Eles não podem, mas estão fazendo, porque Trump está violando a lei o tempo todo”.
Green acrescenta uma observação sobre o desconhecimento de direitos entre os migrantes, que contribui para detenções evitáveis. “Só que as pessoas não sabem desse direito e abrem a porta e acabam permitindo que o ICE o prendam”.
Casos individuais e consequência das detenções
Entre os detidos de maior visibilidade está o influenciador brasileiro Júnior Pena, que acumulava quase um milhão de seguidores e divulgava conteúdos sobre imigração para a comunidade brasileira nos EUA.
Segundo relatos de conhecidos, Pena foi detido por não ter comparecido a uma audiência de seu processo migratório, tendo ingressado no país de forma irregular, e em suas redes defendia que “apenas bandidos” seriam alvo do ICE.
O Conselho Americano de Imigração descreve também a prática de transferir pessoas entre estados e guarda que agrava a impossibilidade de acompanhamento legal pelas famílias. “Famílias e adultos desaparecem em centros de detenção em um estado e reaparecem a milhares de quilômetros de distância — ou em outro país após uma deportação rápida”.
Condições nos centros e impactos humanos
A expansão das detenções tem afetado as condições das instalações e o atendimento a quem está sob custódia, com registros de doenças contagiosas e mortes. Entre 1º de janeiro e 18 de dezembro de 2025, 30 pessoas morreram sob custódia do ICE, número que o estudo qualifica como superior ao verificado durante a pandemia de covid.
Em um centro no Texas, surtos de sarampo levaram a medidas de quarentena enquanto autoridades locais lidavam com a propagação da doença entre detidos.
O conjunto de dados e relatos do final de 2025 coloca em evidência o aumento da detenção de imigrantes nos EUA, a participação de empresas privadas na estrutura prisional, mudanças nas taxas de liberação e o impacto humano das práticas adotadas, conforme análise das fontes citadas.

