Estudo explica como febre do Oropouche difere da dengue em sinais e exames
Um trabalho conduzido por pesquisadores brasileiros durante o surto de 2024 em Manaus identificou semelhanças entre a febre do Oropouche e a dengue, ao mesmo tempo em que apontou diferenças clínicas e laboratoriais que podem orientar a atuação clínica em regiões onde as duas arboviroses circulam.
O estudo, intitulado Perfis clínicos e laboratoriais da doença do vírus Oropouche no surto de 2024 em Manaus, Amazônia Brasileira, foi publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases e resultou de um esforço da Rede de Vigilância em Saúde Ampliada Revisa com apoio do Instituto Todos pela Saúde ItpS.
Maria Paula Mourão médica pesquisadora da Rede Colaborativa de Vigilância Ampliada e Oportuna trouxe detalhes sobre as diferenças observadas entre as duas infecções. “No Oropouche, a dor de cabeça costuma ser mais intensa, as dores articulares são mais frequentes, e as manchas na pele tendem a ser mais disseminadas. Também observamos alterações laboratoriais mais significativas, como aumento discreto de enzimas do fígado, e diferenças na resposta do sistema imunológico”
Em contraponto às características do Oropouche Mourão ressaltou aspectos mais típicos da dengue. “Já na dengue costuma ocorrer mais diminuição das plaquetas, risco maior de sangramentos e de choque. Mesmo assim, só os sintomas não são suficientes para diferenciar com segurança uma doença da outra”
Os autores acompanharam pacientes com quadro febril agudo atendidos na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado FMT HVD por até 28 dias, com avaliação clínica, exames laboratoriais e testes específicos para dengue oropouche e outras arboviroses, de forma a caracterizar o curso da doença e as alterações detectáveis em exames.
Sobre a conduta diante das semelhanças e sobre o que realmente importa no atendimento Mourão destacou sinais que indicam gravidade e demandam busca imediata por atenção médica. “Mais importante do que saber o nome da doença é reconhecer rapidamente os sinais de gravidade, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, confusão mental ou piora progressiva do estado geral e buscar o serviço de saúde mais próximo”
Ao lembrar grupos que merecem atenção redobrada a pesquisadora reforçou orientações para gestantes crianças idosos e portadores de doenças crônicas. “Nesses grupos, a recomendação é procurar avaliação médica precoce e não esperar a piora do quadro”
Além do perfil clínico os pesquisadores identificaram características virológicas que podem ter influenciado a magnitude do surto. De acordo com o estudo o vírus detectado em Manaus pertenceu a uma linhagem reordenada do Oropouche já registrada no país que apresentou sinais de maior virulência e replicação o que sugere transmissão local contínua. Os autores também observam que fatores ambientais climáticos e a presença do vetor contribuíram para a dimensão do surto.
Otransmissor principal da febre do Oropouche é o mosquito Culicoides paraensis conhecido como maruim ou mosquito pólvora enquanto a dengue é transmitida pelo Aedes aegypti e tem circulação urbana intensa. A pesquisadora Bárbara Chaves do Instituto Todos pela Saúde explicou diferenças de contexto entre as duas doenças. “A dengue é uma doença bastante conhecida pelos brasileiros, com a qual convivemos há muitos anos. Tem alta incidência no Brasil, principalmente devido à abundância do mosquito transmissor, o Aedes aegypti. Isso se deve ao clima favorável para a proliferação do mosquito e à característica urbana dessa espécie”
Sobre a expansão do Oropouche para além da Região Norte Chaves relacionou possíveis causas ambientais. “Essa dispersão e aumento no número de casos de febre do Oropouche podem ter ocorrido por um conjunto de fatores, como mudanças no uso da terra, incluindo desmatamento e desenvolvimento agrícola”
Na avaliação de medidas de controle Chaves detalhou estratégias já empregadas contra a dengue e as limitações do enfrentamento do Oropouche. “Em relação à dengue, podemos diminuir a incidência com o combate ao mosquito transmissor, ou seja, com a eliminação dos criadouros. Há também estratégias já adotadas em algumas cidades, como o método Wolbachia [tecnologia que consiste em inserir a bactéria Wolbachia em alguns mosquitos para impedir que os vírus dessas doenças se desenvolvam dentro do mosquito], além da vacina contra o vírus”
Ao propor caminhos para melhorar a resposta a ambas as arboviroses Chaves apontou ações de vigilância e diagnóstico. “Há medidas que podem ajudar a conhecer e responder melhor a essas duas doenças, como monitorar a evolução dos vírus para identificar diferentes linhagens e melhorar o diagnóstico diferencial entre as duas doenças, principalmente em regiões onde ambos os vírus circulam”
O estudo reforça a necessidade de ampliar a capacidade de diagnóstico e o monitoramento genético das linhagens virais e indica que a prioridade no atendimento é reconhecer sinais de gravidade e encaminhar pacientes nos prazos apropriados, com atenção especial a grupos vulneráveis.

