Influenciadores gerados por inteligência artificial viram aposta bilionária de marcas

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A expansão da inteligência artificial generativa impulsiona o mercado de publicidade com a criação de personas virtuais que operam sem descanso.

O setor de marketing digital atravessa uma transformação significativa com a ascensão de influenciadores desenvolvidos por inteligência artificial. Esses personagens variam do estilo cartoon ao hiper-realismo e representam uma solução para empresas que buscam consistência nas entregas publicitárias. A consultoria Grand View Research projeta que este segmento movimentará cerca de US$ 50 bilhões até 2030. O valor representa um salto expressivo em relação ao tamanho atual do mercado global, estimado hoje em US$ 8 bilhões.

A atratividade dessas figuras digitais reside na mitigação de riscos humanos comuns na indústria da influência. Personas virtuais não enfrentam problemas de saúde, cumprem rigorosamente os prazos estipulados e eliminam a possibilidade de crises reputacionais decorrentes de comportamentos inadequados. Executivos de criação digital apontam o menor risco de cancelamento como um fator decisivo para o investimento das marcas, já que o controle sobre as ações e falas do personagem é absoluto.

O Brasil ocupa uma posição de liderança nesse cenário global, exemplificado pelo sucesso da Lu, do Magazine Luiza. A personagem criada em 2003 evoluiu para se tornar a influenciadora virtual de maior faturamento publicitário do mundo, segundo levantamento da plataforma Kapwing. Com mais de 30 milhões de seguidores somados em suas redes, a persona brasileira supera em 34 vezes a receita de outros concorrentes digitais. No ranking internacional, ela é seguida por Lil Miquela, avatar que já protagonizou campanhas para grifes como Prada e BMW.

A Ásia também se destaca como fronteira de crescimento, especialmente com o uso de avatares em transmissões de vendas ao vivo na China. Cópias digitais de influenciadores reais já foram utilizadas em plataformas de comércio eletrônico, gerando vendas milionárias em sessões únicas. As previsões indicam que o mercado chinês de influenciadores virtuais deve crescer 35% até o final da década.

O potencial financeiro tem atraído investimentos robustos para a criação de propriedades intelectuais digitais. Victor Trindade, do canal Neagle, fundou recentemente a FlyMedia com o objetivo de fabricar influenciadores via IA, captando R$ 20 milhões em investimentos. O empresário compara a estratégia ao modelo de grandes estúdios de animação. “Queremos ser a Disney do futuro. Assim como eles pegaram a Pixar e construíram [ativos de] propriedade intelectual que transcendem o canal de distribuição. A propriedade intelectual do futuro são os influenciadores”.

Celebridades brasileiras também aderiram ao movimento para ampliar sua capacidade de produção de conteúdo. A apresentadora Sabrina Sato lançou a Satiko em 2021, desenvolvida pela empresa Biobots. A equipe necessária para gerir a personagem foi reduzida de seis para duas pessoas graças aos avanços da inteligência artificial. Outras figuras públicas, como Deborah Secco e Luiza Possi, seguiram o mesmo caminho ao lançar suas versões digitais para interagir com o público e fechar parcerias comerciais.

A tecnologia atual permite que esses avatares funcionem como agentes autônomos e não apenas como figuras estáticas. Ney Neto, sócio fundador da Biobots, destaca a evolução funcional dessas criações para além da imagem. “Esses influencers mudaram um pouco de lugar. Com a IA, eles começam a ganhar cérebros digitais e passa a ser possível interagir com eles. Eles podem atender o público, ajudar nas vendas… As marcas que nos procuram hoje querem menos um personagem e mais algo que tenha um uso real”.

Especialistas avaliam que o mercado atingiu um ponto de maturação cultural, onde o público compreende a proposta sem se sentir enganado. Jefferson Nascimento, diretor de conteúdo da Jet, observa uma tendência de afastamento do realismo extremo para evitar estranhamento. “Acho que este vai ser um ano forte neste campo. A tecnologia está muito consolidada e se acelerou no ano passado. E houve um momento de maturação cultural, das pessoas entenderem e aceitarem esse movimento”. Ele complementa sobre os cuidados estéticos necessários. “Mas o público não quer ser enganado. No começo, buscava-se o hiper-realismo, mas acho que agora o movimento é se distanciar disso. O hiper-realismo traz riscos de reputação”.

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