Academia aposta no engajamento brasileiro para recuperar relevância do Oscar
A premiação mais famosa do cinema encontrou na mobilização digital dos brasileiros uma fonte de energia vital para manter seu prestígio global e ampliar o alcance da cerimônia.
Hollywood passou anos tentando sustentar sua centralidade enquanto o público migrava para o streaming, mas a dinâmica mudou drasticamente com a entrada do Brasil no roteiro principal. A Academia percebeu que a diversidade cultural e a energia das torcidas organizadas nacionais funcionam como combustíveis essenciais para um evento que busca sobreviver à fragmentação do consumo de mídia e à perda de interesse do espectador tradicional.
O impacto dessa mobilização ficou evidente na campanha recente de Fernanda Torres com o filme “Ainda Estou Aqui”, que gerou números expressivos nas plataformas digitais. A atriz acumulou mais de 18 milhões de curtidas e 464 mil comentários apenas entre janeiro e fevereiro de 2025, superando em quase sete vezes o engajamento somado de todas as suas concorrentes segundo levantamento da mLabs.
Essa vitalidade digital contrasta com o histórico de audiência televisiva nos Estados Unidos, que sofreu quedas acentuadas ao longo da última década por diversos fatores. A transmissão que alcançou 57 milhões de espectadores com “Titanic” em 1998 caiu para 10,5 milhões no auge da pandemia em 2021, recuperando-se parcialmente para 19,7 milhões em 2025.
O prestígio da cerimônia passou a ser medido também pelo volume de conversas online, ultrapassando as fronteiras físicas de Los Angeles e garantindo a sobrevida do show. Dados da rede ABC apontam que a edição de 2025 gerou 104,2 milhões de interações sociais, confirmando que o debate sobre os filmes ganha vida própria na internet muito além da exibição na TV.
A presença brasileira segue forte nas indicações de 2026 com “O Agente Secreto”, que disputa estatuetas em quatro categorias principais incluindo melhor filme e melhor ator para Wagner Moura. A abertura para produções em língua não inglesa, iniciada simbolicamente com a vitória do sul-coreano “Parasita” em 2020, consolidou-se como uma estratégia necessária para manter a relevância do prêmio em um cenário globalizado.
O entusiasmo nacional traz consigo um efeito colateral preocupante manifestado em ataques virtuais e falta de civilidade contra competidores estrangeiros. A situação atingiu um ponto crítico no ano anterior, obrigando Fernanda Torres a pedir publicamente o fim das ofensas direcionadas às atrizes Mikey Madison e Karla Sofía Gascón.
A disputa segue acirrada com produções como “Pecadores”, recordista com 16 indicações, que divide opiniões sobre a consistência de seu enredo de vampiros. O comportamento hostil nas redes sociais muitas vezes ignora que a divergência artística faz parte do jogo e que o barulho digital nem sempre garante a vitória.

