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Fim do Pantanal? Pesquisa mostra redução de 82% da água, avanço da pecuária e alta concentração de terras privadas no bioma

Estudo alerta para o fim do Pantanal até 2070 após queda de 82% da água, avanço da pecuária e concentração fundiária. Entenda os impactos e dados.

O fim do Pantanal aparece como prognóstico plausível em um trabalho acadêmico que relaciona redução hídrica, avanço da pecuária e concentração territorial, e que mostra 97% do bioma em posse privada e queda de 82% da área ocupada por corpos d’água.

O artigo assinado pelos geógrafos Danilo Souza Melo, Marcelo Ribeiro de Mendonça e Sedeval Nardoque e publicado na revista Campo-Território organiza dados do INPE, MapBiomas, IBGE e INCRA para mapear a dinâmica que tem levado o bioma a um ponto de ruptura.

O climatologista Carlos Nobre teve seu alerta citado no estudo e sua síntese do risco foi incorporada à argumentação dos autores, reforçando o diagnóstico científico sobre a trajetória do território. “Acho que o Pantanal acaba até 2070.”, destacou.

Incêndios provocados e responsabilização

O levantamento afasta a ideia de que as queimadas sejam fenômenos naturais e aponta que cerca de 95% dos focos registrados em 2024 tiveram início dentro de propriedades privadas, com sinais de ignição intencional em muitos casos, conforme análise dos autores e laudos oficiais.

Agosto mantem baixos indices de queimadas apos semana critica fim do pantanal
Queimadas e incêndios descontrolados colaboram com o risco de extinção do bioma e da fauna pantaneira

Relatórios da Polícia Federal sobre os incêndios de 2020 identificaram início do fogo em fazendas de Mato Grosso do Sul e mensagens orientando pontos estratégicos para as chamas. O Ministério Público mapeou 239 pontos de ignição, sendo 120 distribuídos por 90 propriedades rurais.

Em Corumbá foram contabilizados incêndios que atingiram dezenas de milhares de hectares, e levantamentos citados no estudo atribuem quase metade da área devastada a cinco fazendeiros, uma empresa de logística e uma construtora, entre os quais um fogo que consumiu 339 mil hectares.

Autuações do Ibama mencionadas pelo trabalho incluem multas de R$ 50 milhões aplicadas a Ademir Aparecido de Jesus e a Luiz Gustavo Battaglin Maciel por incêndio que atingiu centenas de milhares de hectares, além de valores multimilionários para outros proprietários e para as empresas Rumo Malha Oeste S.A. e Trill Construtora Ltda.

Transformação do uso do solo e concentração fundiária

Os dados compilados mostram alteração profunda do uso do solo no Pantanal. Entre 1985 e 2023 as áreas classificadas como pastagem passaram de 689,8 mil hectares para 2,51 milhões, enquanto a superfície de corpos d água encolheu de 3,23 milhões para 559 mil hectares, uma redução superior a 82%.

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Pantanal registrou redução de 82% de seu volume de água

Os censos agropecuários registraram aumento do rebanho bovino, com crescimento de 43% no Pantanal de Mato Grosso entre 1995 e 2017, de 2,39 milhões para 3,44 milhões de cabeças, e de 25% no Pantanal de Mato Grosso do Sul, de 3,97 milhões para 4,96 milhões.

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Gráfico mostra a redução drástica do volume de água no Pantanal

O estudo identifica municípios com maior concentração do processo, como Corumbá, Aquidauana, Miranda e Porto Murtinho em MS, e Cáceres, Barão de Melgaço, Porto Esperidião e Santo Antônio do Leverger em MT, áreas que também exibem elevadas frequências de queimadas, com parcelas atingidas até 39 vezes desde 1985 segundo MapBiomas.

A análise fundiária expõe um quadro de concentração extrema, com 97% do bioma em posse privada e apenas 3% sob controle público, pequenas propriedades até 500 hectares sendo maioria em número mas cobrindo pouca área, 16% em MT e 5% em MS, e um grupo mínimo de imóveis muito maiores ocupando fatias de 32% a 41% do território.

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Pecuária avança sobre areas no Pantanal

Pelo critério legal de latifúndio o Pantanal abriga 15 imóveis que somam 663 mil hectares, cerca de 4,5% do bioma, e apenas 12 propriedades privadas têm área superior ao conjunto das terras públicas do Pantanal.

Entre 2019 e 2022 o monitoramento Land Tracking registrou mudança de titularidade de mais de 3,7 milhões de hectares, com picos de transferência em 2020 e 2022, coincidindo com a explosão de incêndios e salto no desmatamento. Em Corumbá foram transferidos 1,03 milhão de hectares e em Barão de Melgaço 427,9 mil hectares.

No mesmo período surgiram nos registros do INCRA 43,3 milhões de hectares descritos como novos imóveis, volume que levanta hipóteses de sobreposição de títulos e práticas associadas à grilagem, inclusive com áreas de imóveis novos aproximando ou superando o tamanho oficial de alguns municípios.

Estudo alerta para o fim do Pantanal até 2070 após queda de 82% da água, avanço da pecuária e concentração fundiária. Entenda os impactos e dados.
Estudo aponta que 97% do Pantanal está sob dominio de propriedades privadas

Os autores apontam que a conversão para pastagens, a migração de pecuaristas e a valorização de terras para fins imobiliários e financeiros transformaram o Pantanal em um ativo de acumulação, em que incêndios e desmate funcionam como instrumentos de apropriação e consolidação de propriedade.

A pesquisa destaca ainda fragilidades institucionais que ampliam a permissividade, como baixa capacidade de fiscalização, lacunas regulatórias e desalinhamento entre órgãos ambientais, forças policiais e esferas federativas, fatores que, na visão dos autores, facilitam a reprodução do ciclo de degradação.

Os resultados materiais desse processo são incêndios recorrentes, grilagem, desmatamento acelerado, perda de biodiversidade e comprometimento da dinâmica hídrica da planície, com impactos diretos sobre populações tradicionais que dependem do território para seu modo de vida.

Fim do Pantanal?

Os autores concluem que, mantidas as atuais tendências de concentração fundiária, uso do fogo como ferramenta de expansão e rentismo sobre a terra, o bioma caminha para um desfecho irreversível previsto no horizonte temporal indicado pelo estudo.

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