Além das queimadas, seca no Rio Paraguai preocupa quem vive da pesca e do turismo

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Seca no Rio Paraguai é uma das piores dos últimos 91 anos
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CORUMBÁ (MS) – Pelo terceiro ano consecutivo, um dos símbolos da imponência e vida do Pantanal, sofre com a falta de chuva e os reflexos da seca já é sentida na pelo, de quem depende do ciclo das águas para tirar o sustento da sua família no Pantanal.

Os dilemas e expectativas de pescadores que vivem do que o rio oferece para sobreviver, foi mostrada na reportagem de Emilio Sant”Anna e Tiago Queiroz, enviados especiais do jornal Estado de São Paulo a Corumbá.

A matéria ilustra o dilema de quem observa, quase que sem acreditar nas imagens que os olhos veem, de um Pantanal nunca visto antes.

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Além das queimadas que desde 2020 devastam boa parte do bioma e dizima centenas de animais, pescadores vivem a incerteza do futuro com o nível do Rio Paraguai cada dia mais baixo. Para muito deles, os efeitos da seca, inclusive, já é uma realidade.

Foi o que contou a pescadora entrevistada pelos jornalistas do Estadão Luciene Oliveira. Entrevista ao chegar no Porto Geral de Corumbá, após enfrentar uma densa cortina de fumaça que se formou na região provocada pelas queimadas no Pantanal que neste ano, se aproximou ainda mais da cidade de Corumbá.

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A fumaça e baixa visibilidade é apenas um dos problemas enfrentados pela ribeirinha que relatou ainda o medo de se chocar com outros barcos, e se ver encalhada em algum banco de areia nos pontos mais baixos do rio.

“Nunca vi tão baixo assim o nível da água”, diz. “Faz três anos que o Paraguai não sobe neste pedaço e foi exatamente onde pegou fogo agora.”, contou.

Luciene Oliveira conduziu seu barco pelas margens do Rio Paraguai para tentar voltar ao Porto de Corumbá Foto: Tiago Queiroz/ESTADÃO

A pior crise hídrica que atinge a região centro-sul do Brasil em 91 anos, soma-se um ritmo acelerado de focos de incêndio no Pantanal, um dos mais ricos e importantes biomas do País. Neste ano, a área queimada já ultrapassa a média histórica para o período de janeiro a agosto. Isso, antes da chegada do mês em que os casos devem atingir seu pico: setembro.

Em 2020, o número de focos de fogo no bioma bateram todos os recordes históricos. “Os incêndios no Pantanal estão diretamente ligados ao regime de cheia dos rios. Áreas que eram alagadas periodicamente antes, agora não são mais”, diz a bióloga e secretária executiva do Instituto do Homem Pantaneiro, Letícia Larcher. “Esses casos, agora, estão escalonando muito mais rápido.”

A paisagem já é bem diferente das que deram à região de Corumbá, o título de Capital do Pantanal, bioma conhecido por possuir a maior planície alagável do mundo. Na região do Porto Geral, local de chegada e partida de embarcações de turismo, chatas de transporte de gado e de pescadores, uma faixa de quase 50 metros se formou, aumentando a distância entre para margem do rio.

As mudanças no Paraguai são notórias. No Porto de Corumbá, de onde partem pequenos barcos de passeio, como o de Luciene, e chalanas turísticas, além de haver reunião de pescadores locais, uma praia com trechos de até 40 metros divide a parte baixa da cidade do rio. Na margem oposta ao porto, o que se vê agora são os restos das casas de alguns ribeirinhos e barcos queimados. Há uma semana, um incêndio atingiu o local devastando a área. “Por milagre sobrou uma pousada que estão construindo. Mas vai saber quantos animais foram mortos ali?”

Número de focos de fogo no Pantanal está acima da média histórica Foto: Tiago Queiroz/ESTADÃO

Poucos metros margem adentro as respostas começam a surgir. Carcarás voam baixo em busca de restos. São cobras e pequenos répteis carbonizados que se escondem sob uma camada espessa de fuligem e troncos queimados. Na quarta-feira, alguns deles, como jabutis, retirados no dia do incêndio, foram soltos novamente no local pelos técnicos do Instituto do Homem Pantaneiro.

No porto, a procura por passeios também cai. Os reflexos na biodiversidade serão logo sentidos, apontam os especialistas. Por ora, jacarés, ariranhas, garças e socós retornam aos poucos. O nível baixo da água torna mais fácil ver alguns deles nas margens queimadas do Rio Paraguai.

Os resultados de levantamento da plataforma MapBiomas deixa o problema ainda mais visível. Em 30 anos, 15,7% da superfície de água do Brasil desapareceu. O Mato Grosso do Sul foi o Estado mais afetado, 57% de todo o recurso hídrico foi perdido desde 1990. Essa redução ocorreu basicamente no Pantanal. No período, 75% da água do bioma sumiu.

“A seca afeta na pescaria, começa a morrer muito peixe. Esses dias mesmo a hélice do motor da Luciane passou na cabeça de um pintado e matou”, afirma Joílson Müller, de 31 anos, pescador, que também trabalha com turismo. Segundo ele, mesmo sendo proibida, a pesca com rede continua ocorrendo.

Por quanto tempo o próprio Pantanal irá resistir ainda é duvidoso e preocupa tanto pesquisadores e ambientalistas quanto Luciene. “Faz poucos dias, levei um turista até perto da Bolívia. Ele só me perguntava: ‘Onde está o Pantanal?’”, diz. “Não tem mais aquelas áreas alagadas, mas está aqui ainda.”

Confira a reportagem completa AQUI

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Pior crise hídrica que atinge a região em 91 anos afetou a pesca e o turismo Foto: Tiago Queiroz

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