Acusado de estuprar sobrinha indígena de 11 anos, é encontrado morto em cela

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  • Post publicado:13 de agosto de 2021

Após a morte de Elinho Arevalo nesta quinta-feira (12) – acusado de estuprar a sobrinha Raíssa da Silva Cabreira, de 11 anos, encontrada morta em uma pedreira de Dourados, a 22 km da Capital – a Polícia Civil confirmou que ele cumpria pena em ala isolada da PED (Penitenciária de Dourados) junto a Leandro Pinosa, de 20 anos, preso pelo mesmo crime. Ambos são acusados de participarem de estupro coletivo contra a menina, e responderão também por homicídio.

Os dois estavam isolados de outros presos por questões de segurança, segundo informado pela Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Prisional) nesta sexta-feira (13). Conforme o delegado Erasmo Cubas, responsável pelas investigações, a Polícia Civil trabalha com a hipótese de suicídio, mas somente os laudos periciais irão comprovar se a morte foi em decorrência de suicídio ou homicídio. “A princípio não houve homicídio por parte dele [do Leandro], mas vamos esperar os laudos”, afirma.

Adolescentes apreendidos

Três adolescentes foram apreendidos pelo crime,que aconteceu no último domingo (8). Raíssa da Silva Cabreira, de 11 anos, foi jogada de um paredão de 20 metros, em uma pedreira. Segundo o, o tio já abusava da menina desde os 5 anos dela, e no dia do crime flagrou o momento em que os quatro acusados do crime estupravam a menina. Ele acabou participando da sessão de estupro contra a sobrinha que havia sido arrastada para o local pelos autores, que planejaram o crime de estupro.

Ainda de acordo com o delegado, os acusados embebedaram a criança para continuar a cometer os abusos. Quando ela recobrou a consciência e tentou se desvencilhar dos autores, foi arrastada para a beirada da pedreira, quebrando os braços em uma tentativa de se defender, mas acabou jogada viva de uma altura de 20 metros.

Quando preso e questionado sobre o crime, o tio disse que estava bêbado. O laudo do exame feito na vítima constatou o estupro. Ela tinha lacerações nos órgãos genitais. Ao todo, sete pessoas foram levadas para a delegacia para serem ouvidas, na segunda-feira (9).

Vulnerabilidade

Ainda criança, Raíssa foi deixada com o tio, com as irmãs, para morarem em um barraco de lona de apenas duas paredes. No local não há camas, nem rede, nem móveis e nem comida. Em um ‘fogão’ improvisado, que são tijolos ajeitados ao lado de fora da tenda, panelas vazias fazem figuração. No local, a população já passa de 20 mil habitantes e sofre com falta de moradia e de perspectiva de vida. “Faz tempo que estamos vivendo um em cima do outro. Tem barraco que abriga até 15 pessoas e isso é desumano. Nem bicho vive assim”, diz o capitão da Aldeia, Bororó, cenário do crime que chocou a população de Dourados, Gaudêncio Benitez, de 41 anos.

Líder da Aldeia Jaguapiru, vizinha, o capitão Isael Morales, também conhecido como Neco, ressalta que alguma coisa precisa ser feita para diminuir o sofrimento nas aldeias, provocado principalmente pela omissão e pelo descaso das autoridades. “Temos que unir as nossas forças e continuar lutando, mas é uma batalha muito dura porque toda essa realidade de consumo de álcool vem de berço e passa de pai para filho”.

Sem esconder o contexto vulnerável em que estão inseridos, com carência de alimentos e até de água potável, tanto Gaudêncio quanto Neco, são categóricos em afirmar que continuarão lutando para conseguir dias melhores nas aldeias e que a luz no fim do túnel está na educação, que, segundo eles, passa pelo poder público.

Álcool nas aldeias

Durante apresentação dos envolvidos no crime, Elinho Arévalo confirmou ao Midiamax que agiu sob o efeito de álcool e que todas as vezes que estuprou a sobrinha, desde os 5 anos de idade, ele estava sob o efeito de álcool. “Era como se o diabo saísse do corote e entrasse dentro de mim”, contou o indígena.

Relatos de lideranças indígenas de Dourados mostram que 99% das ocorrências policiais nas aldeias são motivadas pelo consumo de bebidas alcoólicas e de outras substâncias entorpecentes, como maconha, crack, cocaína. Essas combinações maléficas, aliadas ao descaso das autoridades, transformam a Reserva Federal Indígena de Mato Grosso do Sul em um campo minado.

Segundo estudiosos, o alcoolismo associado aos povos indígenas é contemporâneo ao confinamento nas reservas, perda dos territórios tradicionais e esgotamento dos recursos naturais. O estímulo ao consumo de substâncias acaba sendo uma medida de controle social, isolando os índios ainda mais nas reservas, sem acesso à educação e assistência.

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