Pesquisador de MS revela como Nossa Senhora Aparecida foi ficando negra

Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, foi “enegrecendo” gradativamente indica pesquisa. (Foto: reprodução Internet)

Queimamos, de medo, do medo da história, os nossos arquivos. Pusemos em branco nossa memória’. Assim começa, com uma citação, o livro ‘O Enegrecimento da Padroeira do Brasil’, do professor e pesquisador de história da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Lourival dos Santos. O que ele explica, ainda assim, é que a força da ideologia que ‘pôs em branco a memória’ do brasileiro, também foi tensionada pela população negra. Um dos principais símbolos do Brasil, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, foi ‘enegrecida’, de forma gradual, para atender à um projeto de nação.

O início da pesquisa, contou ele, começou na graduação. O professor da UFMS era, então, aluno de história da USP (Universidade de São Paulo). Foi quando viu uma imagem reproduzida da Padroeira, durante um curso de história da arte. Essa imagem, que vem do século XIX, era branca.

“A primeira estampa que eu tive acesso é branca. Logo na graduação quando eu vejo a imagem de Aparecida, uma santa branca”. A reprodução antiga da Santa ‘branca’ e com traços ‘brancos’ mostra, conforme explicou, que ela nem sempre foi reproduzida como a conhecemos agora.

A primeira estampa oficial de Nossa Senhora
Aparecida, impressa na França em 1854 (Reprodução)
A primeira estampa oficial de Nossa Senhora Aparecida, impressa na França em 1854 (Reprodução)

Um longo processo de negociação

É de ‘negociação’ que Louviral chama todo o processo, ao longo da história, que levou a imagem de Aparecida a ser representada como é. O professor explica que não é possível estabelecer uma data para o início da associação entre a imagem da santa e a cor negra. Entre o século XIX e o XX, no entanto, aspectos do fim do Império, início da República, e, especialmente, o fim da escravidão, em 1888, marcam a cultura imagética de Nossa Senhora Aparecida.

“Esse processo de enegrecimento deve ter se dado entre o final do século XIX e o início do século XX, justamente com a estratégia de inclusão do negro no projeto de cidadania do Estado brasileiro. Mas não é uma estratégia do Estado e da igreja no sentido manipulador do termo. Eu chamo de processo de negociação simbólica entre Estado, igreja e devotos. Então não é bem como a igreja quer, não é como os devotos querem, não é como o Estado quer”, comenta.

São os devotos, conforme explicou o professor, um dos pontos-chaves para enteder as mudanças identitárias da imagem. Isso porque a população negra, que até hoje representa mais da metade dos brasileiros, representou, ao longo da história brasileira, um forte ‘peso’ entre o público católico.

“No caso da Aparecida é interessante porque ela se torna negra. Em Aparecida tem um processo, que é muito interessante porque é um processo de descobrimento da própria identidade brasileira. Porque o elemento africano, por ser escravo, ele não pertencia à comunidade nacional. Ele não era sequer cidadão. Quando você tem a República, ela tem um problema, porque deixava de fora a imensa maioria da população de fora da cidadania”.

Dessa forma, explica o professor, é como se a imagem da Santa indicasse que a identidade nacional do início da República, o projeto de nação, tivesse que abrigar essa imensa população devota. Lourival lembra que essas ‘negociações’ em torno da imagem da Santa são constantes.

“É uma negociação no sentido de você relativizar as tensões existentes. Na década de 1980, com o surgimento da teologia da libertação, com a pastoral afrobrasileira, aí você vai encontrar imagens da Santa totalmente ligadas à questão de negritude: cabelo crespo, por exemplo. Então você tem toda uma participação forte da igreja católica que reivindica a negritude da Nossa Senhora”, relata.

Até a ditadura militar – outro momento histórico em que a reivindicação de uma identidade nacional ganha força – mostra como a santa é importante para a ideia de Brasil, conta Lourival.
Isso porque em 1978, com a ditadura a pleno vapor, houve um atentado à imagem onde estava exibida, no Masp (Museu de Arte de São Paulo). Destruída em pedaços, no mesmo ano Aparecida já estava restaurada.

“Aí é que está o poder do ícone da Aparecida que ressurge nesses 300 anos. Esse poder sintético, que ao mesmo tempo é ambíguo e é capaz de fazer esse ‘colamento’. A ideia de 1978 quando ela é colada, no MASP, ela fica em pedaços e naquela época política do Brasil, com o início da ditadura, então essa ideia da mãe preta que unifica a identidade nacional, até mesmo não católicos, é muito poderosa”, enfatiza.

Família negra de devotos, uma das imagens utilizadas no livro (Reprodução)
Família negra de devotos, uma das imagens utilizadas no livro (Reprodução)

Uma rainha preta e brasileira

Capítulo do livro e um dos momentos essenciais para a construção imaginária da santa se dá no encontro da imagem com a Princesa Isabel, regente do Brasil, em 1868. Isabel visita a capela onde a santa estava exibida e a presenteia com uma coroa. É aí, possivelmente, explica o professor, o início da ‘coroação’ de Nossa Senhora Aparecida como rainha do Brasil.

Além disso, explica o historiador, a imagem de Nossa Senhora Aparecida é a junção de duas santas. As duas, conta ele, com forte apelo entre a população negra católica.”Nossa Senhora da Conceição, que na verdade é a imagem original que apareceu no Rio Paraíba, e ao mesmo tempo, para poder juntar a cabeça do corpo, que estava descolado, se colocou um terço em volta, um Rosário. A Nossa Senhora do Rosário é até hoje a imagem preferida entre os negros brasileiros. Nossa Senhora do Rosário e São benedito”, comenta.

‘Encoraja os gritos/ acende os olhares/ajunta os escuros em novos palmares/desce novamente às redes da vida do teu povo negro/negra Aparecida’, diz um dos cantos tradicionais católicos, e uma das citações do livro. É dessa forma que Nossa Senhora Aparecida mostra, além de uma história marcada por disputas de identidade, uma história de resistência.

A imagem indica um ‘Brasil’ que foi marcado não apenas pela tentativa de ‘enbranquecimento’ da cultura brasileira. O projeto de nação, exemplificado pela santa, mostra as forças constantes do povo negro, que ‘enegreceu’, ao menos em parte, a rainha do Brasil.

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