Reorganização da Santa Casa pode transferir casos de menor complexidade para outras unidades na Capital
A Santa Casa de Campo Grande deve iniciar uma transição para concentrar seus atendimentos em pacientes de alta complexidade, segundo o gestor provisório do hospital, Luiz Alberto Kanamura em entrevista divulgada pelo Correio do Estado. A proposta mencionada por ele prevê prioridade para casos cardiológicos, neurológicos, queimados e outros atendimentos que exigem estrutura especializada.
Kanamura afirmou que a divisão de responsabilidades foi discutida com representantes do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, Governo do Estado e Prefeitura de Campo Grande. Pela proposta apresentada pelo gestor, pacientes fora do perfil de alta complexidade teriam de ser absorvidos por outros pontos da rede pública de saúde.
A mudança ainda não aparece formalizada nas publicações oficiais consultadas pela Folha MS. Documentos estaduais que organizam a rede de urgência classificam atualmente a Santa Casa como hospital estratégico responsável por atendimentos de média e alta complexidade, além de serviços cardiovasculares, neurologia, neurocirurgia, traumatologia, ortopedia e assistência pediátrica.
O modelo vigente também mantém o hospital como uma das principais referências de Mato Grosso do Sul para urgências clínicas, cirúrgicas, pediátricas e traumatológicas. Uma eventual mudança no perfil dos pacientes, portanto, depende da definição de como Estado e Município distribuirão os atendimentos que hoje chegam à instituição.
Reestruturação começou após decisão judicial
Kanamura assumiu a gestão provisória após decisão judicial que afastou integrantes da Diretoria Corporativa e do Conselho de Administração da Santa Casa. O prazo inicial definido para a administração provisória é de 180 dias, com possibilidade de prorrogação, e o gestor recebeu poderes para reorganizar equipes, serviços, contratos e compromissos financeiros.
Entre as determinações judiciais está a apresentação mensal de informações sobre a situação administrativa, contábil, financeira e operacional do hospital. Os relatórios precisam detalhar despesas, contratos mantidos ou celebrados, aplicação de recursos públicos e privados e medidas adotadas durante a reorganização.
A intervenção administrativa ocorreu após a Operação Antidotum, deflagrada em setembro pelo Ministério Público para investigar suspeitas de fraudes e desvios em contratos ligados à Santa Casa. Segundo o MPMS, seis mandados de prisão preventiva e 36 de busca e apreensão foram cumpridos durante a operação, e o prejuízo identificado inicialmente ultrapassava R$ 4,9 milhões.
A crise financeira antecede a mudança na administração. As demonstrações contábeis referentes a 2024 registraram prejuízo de R$ 98,364 milhões e patrimônio líquido negativo de R$ 514,888 milhões no encerramento daquele exercício. O próprio hospital vinha sustentando que o contrato para atendimento pelo SUS estava desequilibrado e que parte dos serviços prestados ultrapassava os valores contratados.
Antes da troca na gestão, as discussões entre Santa Casa, Estado, Município e Ministério Público estavam concentradas justamente na continuidade dos atendimentos, revisão contratual e reorganização financeira da instituição. Em junho, o MPMS informou que buscava a retomada integral dos serviços do SUS no hospital e que o Governo do Estado defendia mudanças no modelo financeiro e na governança.
A definição anunciada por Kanamura representa uma mudança importante em relação à configuração atual da rede, caso seja formalizada. Até esta terça-feira (6), os atos públicos consultados mantinham a Santa Casa enquadrada como unidade de referência que presta serviços tanto de média quanto de alta complexidade.
