MPMS denuncia 11 por corrupção e entrada de celulares em presídios de Dourados

Imagem do interior de um presídio em Dourados com portões fechados e agentes penitenciários.

Organização criminosa integrava servidores e lideranças do crime

Onze pessoas foram formalmente acusadas por corrupção, entrada de celulares e favorecimento de presos no sistema penitenciário de Dourados, Mato Grosso do Sul. O grupo, que inclui seis servidores públicos, uma advogada e integrantes do Comando Vermelho, teve a denúncia aceita pela 2ª Vara Criminal de Dourados no dia 28 de julho de 2025, tornando-se réus por crimes como corrupção ativa e passiva, organização criminosa, fraude em licitação e violação de sigilo funcional. As investigações partiram da Operação Sátrapa, deflagrada em fevereiro de 2025 após apurações da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado.

O Ministério Público sustenta que o núcleo da associação criminosa era liderado pela advogada Aline Guerrato, pelo policial penal Rangel Schveiger, pelo policial penal Mauro Pereira dos Santos e por Luis Élio Gonçalves Filho, conhecido como “Cabeça de Porco”, apontado como liderança do Comando Vermelho e marido de Aline. A atuação do esquema teria permitido a entrada de aparelhos celulares dentro das unidades, a comercialização de drogas por presos mediante pagamentos de até R$ 300 mil e o porte de armas em ambiente prisional. Em um dos casos, Rangel e Mauro teriam recebido R$ 9 mil para facilitar o ingresso de um aparelho de telefone celular e benefícios no cotidiano de internos.

Fraudes em contratações e compra de benefícios

Além do envolvimento direto no cotidiano prisional, servidores foram denunciados por fraude em licitações. Gislaine de Souza Fonseca Schveiger, policial penal e ex-diretora do Patronato de Dourados, teria solicitado a duas pessoas diferentes orçamentos com o objetivo de simular competitividade, favorecendo uma contratação específica. Rangel Schveiger também responde por duas fraudes semelhantes, além de advocacia administrativa ao favorecer interesses particulares de detentos, incluindo mudanças de raio e tentativas de transferências para unidades de interesse do grupo.

Segundo as investigações, Aline Guerrato, aproveitando a condição de advogada, ofereceu vantagens indevidas a servidores para obter vagas de estudo, trabalho e outros privilégios a presos ligados à organização, além de facilitar transferências e alterações administrativas que favoreciam diretamente Luis Élio e comparsas. As conversas indicavam repasses financeiros realizados inclusive via Pix e em espécie para produção e aceleração de documentos que garantiriam remição de pena.

O policial penal Eduardo Trigueiro dos Santos Silva teria recebido pagamentos para alterar e produzir laudos penais, enquanto Aluizio Boteiro Chastel Villazante, vice-diretor da Gameleira II, é acusado de receber R$ 10 mil sob justificativa de recursos para presos, mas que segundo o Ministério Público superavam o limite e serviam ao esquema irregular. Luciano da Silva Cunha atuava como intermediário da quadrilha, facilitando negociações no presídio em alinhamento direto com diretores.

Entre os pontos destacados pela acusação aparece a entrada clandestina de celulares, registrada por câmeras em janeiro de 2024, quando Mauro Pereira e Rangel teriam manobrado para que aparelhos e carregadores ingressassem sem passar pelo scanner de segurança. A denúncia alega que esses movimentos contavam com o aval da direção do presídio e tinham como objetivo principal oferecer vantagens a presos mediante pagamentos substanciais.

O juiz responsável pelo caso rejeitou, até o momento, pedidos para afastar servidores denunciados que seguem em atividade, argumentando que as condutas sob análise são de 2024 e não há indícios de uso indevido das funções nos dias atuais. Também foi encaminhado pedido para que, caso sejam condenados, os acusados percam suas funções públicas, além da fixação de valor mínimo para reparação de danos.

A Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário comunicou que as providências administrativas cabíveis foram tomadas à época dos fatos. Em resposta, a defesa de Mauro Pereira dos Santos nega envolvimento nos crimes apontados e questiona a análise das provas, pedindo separação do seu processo dos demais réus e absolvição. O advogado de Rangel Schveiger afirma que não houve citação formal da denúncia e expressa confiança na inocência do acusado. “Acreditamos que durante o processo conseguiremos provar essa inocência para que ele seja absolvido no final”, ressalta Werton Araújo de Brito, acrescentando que toda colaboração com as autoridades foi prestada desde o início da investigação.

PUBLICIDADE



Veja também