Alemanha registra vitória histórica da AfD em eleição estadual
Pesquisas de boca de urna apontaram que o partido Alternativa para a Alemanha obteve 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, colocando pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial um partido de extrema direita na posição de disputar a formação do governo regional.
A AfD não alcançou maioria absoluta nas projeções, e a contagem oficial das urnas seguia em andamento, mas o resultado representou uma derrota expressiva para os conservadores do chanceler Friedrich Merz e sinalizou o desgaste da coalizão governista em um cenário político fragmentado.
Conforme informou a emissora ZDF, a participação eleitoral foi elevada, chegando a 77% o que reforçou a dimensão política do pleito e a força do movimento de insatisfação com o governo federal.
Ulrich Siegmund, de 35 anos, candidato-líder da AfD na Saxônia-Anhalt, atraiu milhares de pessoas aos seus comícios e apresentou a vitória no estado como primeiro passo para o poder nacional. “Fizemos história neste país”
Em seguida, no mesmo tom de celebração e com líderes nacionais do partido ao seu lado, ele afirmou que a população havia deixado claro o desejo de mudança. “O povo deixou absolutamente claro que finalmente quer uma mudança política e, acima de tudo, mostrou que quer isso conosco”
Reações políticas e dificuldade de alianças
O avanço da AfD representou um revés para Merz, cujo índice de aprovação pessoal havia caído nos últimos meses, e obrigou os conservadores a considerar alternativas, possivelmente envolvendo acordos com partidos de orientações diferentes, para evitar a entrada da AfD no governo estadual.
Uma pesquisa da emissora ARD indicou que 87% dos eleitores do estado estavam insatisfeitos com o governo federal, reforçando interpretações de que o resultado se configurou principalmente como um voto contra a gestão em Berlim.
Marcel Fratzscher, presidente do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, classificou o resultado em termos de confiança no governo federal. “Este resultado eleitoral é, acima de tudo, um voto de desconfiança no governo federal”
Todos os principais partidos alemães se recusam a formar coligações com a AfD, que foi classificada como extremista de direita pelo escritório local do serviço de inteligência interna da Alemanha, o que torna complexa qualquer tentativa imediata de integração do partido em governos estaduais ou no âmbito federal.
Uma exceção potencial vem do pequeno partido Aliança de Sahra Wagenknecht que parecia prestes a atingir o mínimo para entrar no parlamento estadual, e que sugeriu a ideia de um primeiro-ministro estadual apartidário sustentado por maiorias variáveis, inclusive com votos da AfD. Siegmund rejeitou essa alternativa como confusa e descartou acordos que impedissem a AfD de implementar sua agenda. “Se chegar ao ponto crítico, simplesmente haverá novas eleições”
Programa, alcance nacional e símbolos
A AfD já figura como o partido mais popular em nível nacional em pesquisas recentes do instituto INSA, com cerca de 28% das intenções de voto contra 20% dos conservadores, e busca consolidar uma base regional para avançar propostas que incluem restrições à imigração, reaproximação com a Rússia, corte do apoio à Ucrânia e saída do euro.
Durante a campanha no estado, a AfD explorou a crescente desilusão com os partidos tradicionais e apresentou propostas para orientar escolas e instituições culturais segundo valores que define como mais tradicionais, além de medidas de ordem simbólica e disciplinar nas escolas.
O programa do partido prevê entre outras medidas a segregação de filhos de refugiados em turmas separadas, a proibição de bandeiras arco-íris nas escolas e o hasteamento diário da bandeira nacional alemã, com o hino nacional cantado em comemorações escolares, bem como propostas por patrulhas de cidadãos, maior ensino de russo nas escolas e a suspensão da construção de novos parques eólicos.
Na reunião eleitoral em Magdeburg, a vitória foi acompanhada de comemorações eufóricas com bandeiras e abraços, e o alcance da notícia teve repercussão internacional, incluindo a publicação de uma captura de tela do resultado pelo presidente dos Estados Unidos em sua rede social.
Antony Lee, participante da festa do partido, expressou em palavras a motivação de parte do eleitorado presente. “É claro que precisamos de mudanças na Alemanha e na Europa Ocidental. E acredito que um sinal de partida está definitivamente partindo daqui — quer você goste ou não”
A Saxônia-Anhalt é um dos menores estados do país com pouco mais de 2 milhões de habitantes e integrava a antiga Alemanha Oriental governada pelos comunistas, o que coloca em perspectiva o avanço rápido do partido desde a sua criação em 2013.
Enquanto a contagem de votos prosseguia e a possibilidade de a AfD formar um governo regional ainda era incerta, o resultado acentuou debates sobre estabilidade política e confiança de investidores, tema explorado por Merz ao advertir sobre os riscos para o estado caso a AfD assumisse o poder.

