Ativista pede transparência e tribunal determina fim do sigilo na investigação
Rómer Saucedo, presidente do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Bolívia, atendeu a um pedido da advogada e ativista Nadia Beller e determinou que a investigação do atentado contra ela não seja mantida sob sigilo. “Em resposta ao pedido da vítima e amiga, que pede que o caso não seja declarado sigiloso, instruí ao juiz da causa que não declare o processo confidencial, para que ela [Nadia] possa ter acesso a todas as informações e para que lhe sejam fornecidas todas as garantias necessárias”. A medida tem por objetivo assegurar transparência e o pleno acesso das partes ao inquérito.
Saucedo também reclamou empenho de instâncias locais para o esclarecimento célere do caso e pediu urgência no atendimento a pedidos do Ministério Público junto ao Judiciário. “Isto significa que se o MP apresentar um requerimento a qualquer hora do dia, o juiz tem a obrigação de [atender os promotores] e emitir [a ordem judicial requerida] imediatamente”. O presidente do TSJ ainda voltou a classificar Nadia como uma “amiga’ ao justificar a atuação.
O ataque ocorreu na segunda-feira, 17, em frente a um hotel de Santa Cruz de la Sierra, quando dois motociclistas não identificados se aproximaram e efetuaram disparos a curta distância. Conforme o Ministério Público, ao menos três tiros atingiram Nadia, um na região do pescoço, outro no tórax e um terceiro no braço direito, levando-a à internação em uma unidade de saúde de Santa Cruz.
Na terça-feira, 18, agentes da Força Especial de Combate ao Crime prenderam no Aeroporto Internacional Viru Viru o argentino Fernando Cerimedo, de 45 anos, apontado pelas autoridades como o principal suspeito. Cerimedo foi detido quando tentava embarcar com destino à Argentina. Ele é conselheiro do presidente boliviano Rodrigo Paz, que assumiu em novembro de 2025, e ex-estrategista de campanha do mandatário argentino Javier Milei. Cerimedo reconheceu ter mantido um relacionamento com Nadia, que, conforme autoridades bolivianas, está grávida de poucos meses.
Nadia Beller acusa Cerimedo de ser o mandante do atentado e, ainda no leito de hospital, gravou vídeo e concedeu entrevistas relatando as circunstâncias que a levaram ao local. Ela afirmou ter ido ao hotel para receber documentos que comprometeriam o ex-presidente Evo Morales. “Ele me disse ‘Ah, sim, eu soube desse caso’. E como, anteriormente, eu tinha dito a ele que estava receosa, ele [Cerimedo] me disse que não ia acontecer nada porque não tinha lógica tentarem algo em um hotel com câmeras à vista de todos. Ele apoiou minha ida e mentiu ao dizer que me mandou escoltas”. A defesa de Cerimedo nega o envolvimento e classifica o caso como uma armação política.
O fiscal-geral do Estado, Roger Mariaca Montenegro, antecipou que a comissão de promotores requisitará a prisão preventiva por até 180 dias do conselheiro presidencial, imputando-lhe tentativa de feminicídio. “Não esqueçamos que, assim como existiriam autores materiais, também podem existir outros autores intelectuais que podem estar envolvidos ou ter participação neste fato”. Montenegro afirmou que o Ministério Público investigará a fundo os fatos.
Na quarta-feira, 19, o presidente Rodrigo Paz publicou nas redes sociais instruções para as investigações e garantias à vítima. “uma investigação profunda, transparente e exaustiva, até esclarecerem o ocorrido”. Paz assegurou ainda que Nadia receberá “toda a segurança e as garantias necessárias”, e que as apurações contarão com “absoluta transparência e independência”.
O nome de Fernando Cerimedo já figurou na imprensa internacional e em casos envolvendo campanhas políticas. A revista The Economist o descreveu como “o homem do MAGA na América Latina”. No Brasil, ele ganhou notoriedade em 2022 ao participar de uma transmissão na internet após o segundo turno das eleições presidenciais, na qual afirmou, sem apresentar provas, que o resultado das urnas havia sido fraudado, e o Tribunal Superior Eleitoral determinou a remoção do vídeo. Após a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 no Brasil, a Polícia Federal indiciou o consultor por tentativa de abolir o estado democrático de direito.
As determinações do TSJ e as prisões realizadas marcam o desdobrar mais recente do caso e impõem ritmo acelerado às investigações, enquanto autoridades prometem garantir acesso amplo aos autos e todas as medidas de proteção à vítima.


