Facções brasileiras disputam controle de corredores de cocaína na Bolívia Bolívia registra alta de homicídios após rompimento de trégua entre facções brasileiras
Onda de violência atinge cidade fronteiriça boliviana com disputa entre PCC e Comando Vermelho.
Guayaramerín, cidade boliviana de 40 mil habitantes na fronteira com o Brasil, vive uma escalada de violência atribuída a facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Nas últimas semanas, uma dúzia de homicídios chocou o país, incluindo a chacina de uma família e a decapitação de corpos, casos raros na Bolívia, que era considerada uma nação segura.
Moradores relatam medo e insegurança crescentes. Donald Somoza, pedreiro aposentado de 75 anos, conta que testemunhou um assassinato em uma praça central, onde a vítima teria levado mais de 80 tiros. A professora Ariana Roca, de 35 anos, afirma que crimes ocorrem com mais frequência e “às vezes acontecem coisas até debaixo do nariz dos policiais”. Dados do Ministério do Governo mostram que os homicídios denunciados entre janeiro e setembro de 2025 somaram 774, contra 325 no mesmo período do ano anterior.
Segundo o pesquisador Joaquín Chacín, especialista em crime organizado, o país vivia uma “pax mafiosa”, com o Estado tolerando os grupos criminosos para evitar confrontos, mas esse equilíbrio se rompeu. As facções disputam o controle de rotas para o tráfico de cocaína em direção ao Atlântico, e Guayaramerín se tornou um ponto estratégico. O agente de câmbio Adhemar Zapata foi assaltado duas vezes, e um dos suspeitos era brasileiro, segundo investigações.
O governo do presidente Rodrigo Paz, que encerrou 20 anos de governos socialistas, acusa os antecessores de permitirem a expansão do crime. Desde novembro, 17 chefes de quadrilhas internacionais foram capturados, conforme o Ministério do Governo. Na semana passada, Paz lançou em Guayaramerín um plano de segurança para reforçar a presença policial nas fronteiras, trocar inteligência com o Brasil e prender foragidos.
Medidas de segurança e desafios
Para Chacín, o aumento do contingente policial pode conter a violência, mas é essencial atacar a estrutura econômica do crime organizado, como a lavagem de dinheiro. “Faz falta um plano sério, mas não se ouve que se esteja trabalhando em algo assim”, diz o pesquisador. O governo também anunciou a construção de uma ponte ligando Guayaramerín ao Brasil, parte de um corredor viário até o Pacífico, no Peru. Moradores como Zapata acreditam que a obra vai dinamizar o comércio, mas temem que facilite a ação de quadrilhas.
Yestin Durán, vendedora de 31 anos, diz que “as quadrilhas, as máfias de roubo, podem atravessar” com mais facilidade. O chefe de polícia local, coronel Johnny Rivas, admite que a violência “vai aumentar” e exigirá mais efetivos. Apesar das medidas, a sensação de insegurança persiste entre os moradores, que convivem com o medo de novos ataques.


