Fidel Castro é celebrado em Cuba em meio a crise energética e tensão com os EUA
O dia marca o ápice de uma agenda de celebrações iniciada em agosto de 2023 em várias províncias da ilha, mas também ocorre em meio a inquietação generalizada diante de uma crise no fornecimento de energia que tem provocado blecautes frequentes.
Conforme divulgado pela União Petrolífera de Cuba, Cupet, a ilha consegue produzir apenas um terço da demanda nacional de petróleo, fator que limita a geração elétrica e agrava interrupções no serviço.
Nas primeiras semanas de agosto os cubanos enfrentaram dois apagões que atingiram o país em menos de 24 horas, episódio que expôs a fragilidade do sistema elétrico e alimentou as preocupações sobre o impacto humanitário e econômico das restrições externas.
Especialistas projetam forte contração da atividade, com estimativa de queda da economia em 6,5% no ano de 2026, efeito associado tanto a problemas estruturais quanto ao endurecimento de medidas externas que dificultam a importação de combustíveis e insumos.
Perante o agravamento, especialistas em direitos humanos vinculados à Organização das Nações Unidas fizeram um chamado à comunidade internacional para ação imediata, alertando para o risco humanitário comparável a outros conflitos regionais.
“Gaza silenciosa”
O presidente Miguel Díaz-Canel classificou a manutenção do bloqueio americano com termo severo, integrando a narrativa oficial sobre as causas da escassez e das dificuldades sociais.
“genocídio político”
Além das sanções econômicas, o ambiente político inclui gestos e declarações que tensionam ainda mais as relações com Washington, onde houve menções à possibilidade de ações militares contra a ilha por parte do ex-presidente Donald Trump.
Impacto social e serviços públicos
Autoresidade do Estado e serviços como saúde e educação, historicamente enaltecidos no país, apresentam sinais de estresse, segundo avaliações públicas e organismos internacionais. A pressão externa é apontada por autoridades cubanas como um fator central no agravamento das condições, e a situação nas unidades de saúde preocupa pela proximidade de um colapso.
O bloqueio, que remonta a medidas ampliadas desde 1962, passou por intensificações em governos recentes e é citado por analistas e autoridades locais como determinante para a dificuldade de adquirir combustíveis e peças de reposição essenciais.
Fidel Castro e a trajetória revolucionária
O centenário começa a ser celebrado oficialmente em eventos que incluem seminários sobre o legado do líder que conduziu a mudança de regime em 1959. Fidel Castro nasceu em Birán, uma fazenda na província de Holguín, no Leste de Cuba, local hoje preservado como conjunto histórico.
O ataque ao Quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, é apontado como marco inicial da ação organizada que mais tarde desaguaria na tomada do poder. Fidel foi capturado, julgado e proferiu um discurso que entrou para a história política do país.
“A História me Absolverá.”
Condenado a 15 anos, foi anistiado em menos de dois anos e partiu ao exílio no México, em 1955, onde articulou o Movimento 26 de Julho e conheceu Ernesto Che Guevara. O grupo desembarcou em 2 de dezembro de 1956 no iate Granma, sofreu perdas iniciais e reagrupou-se nas serras da Sierra Maestra, de onde conduziu a guerrilha até o triunfo em 1º de janeiro de 1959.
Fidel permaneceu quase cinco décadas no comando do país e, nos primeiros anos, implementou nacionalizações e reforma agrária, além de políticas que ampliaram o acesso universal à saúde, à moradia e à educação, com campanhas de alfabetização em grande escala.
O escritor colombiano Gabriel García Márquez, observando aspectos pessoais do líder, registrou mudança de hábito associada a uma questão simbólica para o poder revolucionário.
“Deixou de fumar para ter autoridade moral para combater o tabagismo”
Ao mesmo tempo em que acumulou aliados internacionais durante a Guerra Fria, notadamente a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Fidel tornou-se um incômodo permanente para os Estados Unidos e alvo de tentativas de isolamento e de ações para removê-lo do poder.
Cobranças por direitos e relatos de repressão
Organizações de direitos humanos reconhecem avanços sociais importantes mas também criticam práticas de repressão e restrição a liberdades políticas que marcaram o regime ao longo de décadas.
Human Rights Watch reconheceu os “importantes avanços” sociais promovidos pelo governo, e ao mesmo tempo descreveu limitações severas à dissidência definidas por expressões que sintetizam a crítica internacional.
“de praticamente todas as formas de dissenso”
Na mesma linha, a HRW avaliou que o embargo americano contribuiu para uma narrativa que, conforme análise da organização, beneficiou politicamente o regime, evidenciada em afirmação de seu então diretor para as Américas.
“Durante décadas, Fidel Castro foi o principal beneficiário de uma política de isolamento profundamente equivocada dos EUA, que lhe permitiu se apresentar como vítima e, ao fazê-lo, desencorajar outros governos de repudiar suas práticas repressivas”
A Anistia Internacional também ponderou avanços sociais, mas classificou o cenário da liberdade de expressão na ilha como o legado mais sombrio associado ao período em que Fidel esteve no comando, destacando relatos de prisões e perseguições de ativistas que se manifestaram pacificamente.
“onde ativistas continuam a ser presos e perseguidos por se manifestarem contra o governo, é o legado mais sombrio de Fidel Castro”
A entidade registrou ainda o testemunho de “centenas de histórias de ‘prisioneiros de consciência’ – pessoas detidas pelo governo simplesmente por exercerem pacificamente seus direitos à liberdade de expressão, associação e reunião” e lembrou processos de excecuções sumárias após a tomada do poder.
“centenas de histórias de ‘prisioneiros de consciência’ – pessoas detidas pelo governo simplesmente por exercerem pacificamente seus direitos à liberdade de expressão, associação e reunião”
“Castro organizou julgamentos de membros do governo anterior, que resultaram em centenas de execuções sumárias”
Em 2006, problemas de saúde levaram Fidel a se afastar da Presidência e delegar a liderança a seu irmão Raúl, mantendo-se, conforme próprio texto divulgado na época, comprometido com a luta ideológica mesmo fora dos cargos executivos.
“Não me despeço de vocês. Só desejo combater como soldado das ideias”
Fidel formalizou a renúncia à Presidência em 19 de fevereiro de 2008. Ele faleceu na noite de 25 de novembro de 2016, com luto oficial de nove dias e cerimônia pública em Havana seguida de traslado das cinzas até Santiago de Cuba. Em Miami, comunidade de exilados comemorou a morte do ex-líder.
Para historiadores e acadêmicos ouvidos em análises públicas, a figura de Fidel permanece central na história do século XX cubano, representando avanços sociais e, ao mesmo tempo, escolhas institucionais que geraram críticas quanto à concentração do poder e à limitação de alternância política.
Pesquisadores destacam que a trajetória de Cuba sob Fidel é tema polarizado na historiografia e que o legado sofrerá transformações ao longo do tempo, à medida que as relações internacionais e as dinâmicas internas evoluam.
O conjunto de eventos do centenário ocorre, assim, em um cenário de celebração oficial e de dificuldades materiais e políticas cotidianas, mantendo acesa a disputa sobre memória, conquistas sociais e reclamações por liberdades civis.

