Brasil vai instalar escritório fixo da Polícia Federal na Bolívia para combater o narcotráfico na fronteira
O governo da Bolívia confirmou a instalação de um escritório permanente da Polícia Federal brasileira dentro do território boliviano. A medida foi anunciada pelo ministro do Governo da Bolívia, Marco Oviedo, e integra um pacote de ações que os dois países vão colocar em prática nas próximas semanas para conter o avanço de organizações criminosas na faixa de fronteira.
O anúncio veio horas depois de uma operação conjunta entre forças de segurança do Brasil e da Bolívia terminar com a prisão de Neno Razuk, nesta segunda-feira (3). Ele é apontado pelas autoridades como um dos alvos de investigações ligadas ao crime organizado transnacional na região. A captura, segundo os governos envolvidos, confirma a necessidade de ampliar a troca de dados entre as polícias dos dois países para localizar integrantes de facções que atuam além das fronteiras nacionais.

A escalada de violência no departamento de Santa Cruz é o pano de fundo do novo acordo. Uma sequência de homicídios elevou o nível de alerta das autoridades bolivianas nas últimas semanas, entre eles o assassinato de um subtenente da Polícia Boliviana que investigava grupos criminosos na região de San Matías, município que faz fronteira com Mato Grosso do Sul. Como resposta, o governo da Bolívia enviou mais de 200 policiais para reforçar a segurança em San Matías e, na sequência, em San Ignacio de Velasco.
Segundo o governo boliviano, a origem da onda de violência está na disputa entre grandes organizações criminosas sul-americanas pelo controle das rotas internacionais do narcotráfico. As autoridades apontam o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como os principais grupos em confronto pelo domínio dos corredores usados para enviar drogas ao Brasil e a outros mercados internacionais, o que transformou a fronteira em um dos pontos de maior tensão da segurança pública na América do Sul.
É diante desse cenário de violência que o escritório permanente da Polícia Federal ganha força como estratégia dos dois governos. Marco Oviedo explicou que a presença fixa da PF em solo boliviano vai permitir uma atuação mais integrada entre as forças de segurança dos dois países, e que o modelo de cooperação também prevê a ida de representantes da Polícia Boliviana para o Brasil.
“Haverá um escritório permanente da Polícia Federal na Bolívia. Também teremos uma representação da Polícia Boliviana no Brasil para manter um fluxo contínuo de inteligência e informações, além do apoio logístico oferecido pelo governo brasileiro por meio da Polícia Federal”, afirmou Oviedo.
O ministro contou que o entendimento entre os dois países vem de uma reunião realizada em abril entre o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, e o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, quando ambos os governos acertaram o fortalecimento da cooperação em segurança pública. Segundo Oviedo, os primeiros passos para colocar a iniciativa em prática devem começar nas próximas duas semanas, com a estruturação do escritório e dos mecanismos de compartilhamento contínuo de informações entre as polícias dos dois países.
Plano “Fronteiras Seguras” mira cidades usadas como corredor do tráfico
Paralelamente à instalação do escritório da PF, o governo boliviano vai colocar em prática o programa “Fronteiras Seguras” nas próximas semanas. O plano tem como alvo ampliar a fiscalização e intensificar operações contra o tráfico de drogas, armas e outros crimes transnacionais em cidades estratégicas para o narcotráfico, entre elas Cobija, Guayaramerín, San Matías e Puerto Suárez, todas localizadas próximas à fronteira com o Brasil.

Marco Oviedo afirmou que essas localidades funcionam como corredores usados por organizações criminosas tanto para o transporte de drogas quanto para a movimentação de integrantes de facções. “O objetivo é realizar operações conjuntas entre a Polícia Boliviana e a Polícia Brasileira para impedir a circulação de criminosos e enfraquecer as rotas utilizadas pelo tráfico“, destacou o ministro.
A expectativa dos dois governos é que o fluxo contínuo de inteligência e a realização de operações conjuntas aumentem a capacidade de repressão ao narcotráfico e reduzam a influência das facções na região de fronteira, área que já concentra parte considerável do comércio internacional de drogas rumo ao Brasil e a outros países.
