Polícia boliviana trocou mensagens com a PF sem saber o que fazer com Neno Razuk
A polícia da Bolívia recorreu à Polícia Federal brasileira para tentar entender o que fazer com o ex-deputado estadual Neno Razuk depois de detê-lo em um posto aduaneiro perto de Porto Suárez, neste domingo. O Folha MS teve acesso à troca de mensagens enviada pelos agentes bolivianos, que revela a falta de instrução formal sobre como proceder com o caso logo após a captura.
Em uma das mensagens, um policial da delegacia de Puerto Suárez descreveu a situação e pediu orientação às autoridades brasileiras.
“Este senhor está na Delegacia de Polícia de Puerto Suárez. Há alguma instrução para ele? Quer que o entreguemos na fronteira?”, indagou o agente, sem receber de imediato uma resposta definitiva sobre os próximos passos.
O impasse ocorreu horas depois de Neno, cujo nome de registro é Roberto Razuk Filho, ser detido pela polícia boliviana. Ele estava foragido desde o mês passado e havia entrado no país vizinho no dia 1º de julho de 2026, pelo posto migratório de San Matías, no departamento de Santa Cruz, próximo ao município de Cáceres, em Mato Grosso. A abordagem que resultou na detenção aconteceu depois de o ex-deputado apresentar um documento considerado suspeito pelos agentes bolivianos.

A prisão aconteceu em meio a um momento de forte tensão na Bolívia, onde 11 pessoas ligadas a facções morreram nos últimos dias, segundo balanço das autoridades locais. Esse cenário de instabilidade nas fronteiras é apontado como um dos fatores que dificultaram uma resposta rápida das autoridades bolivianas sobre a situação de Neno Razuk.
Versão da defesa
O advogado Ricardo Pereira, que representa o ex-deputado, nega que Neno tenha sido preso e sustenta que ele estava a caminho de se entregar espontaneamente às autoridades brasileiras quando foi abordado. Segundo a defesa, a demora na apresentação se explica pela existência de recursos ainda pendentes de julgamento na Justiça Eleitoral, que poderiam reverter a perda do mandato parlamentar e a própria decretação da prisão.
De acordo com Pereira, depois de o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul julgar os recursos de forma desfavorável e de a Justiça indeferir o pedido de habeas corpus, Neno decidiu cumprir a ordem judicial de forma espontânea, manifestando essa intenção formalmente nos autos do processo; o advogado afirma que já havia pedido ao juízo a definição das condições para essa apresentação voluntária, pedido que havia sido deferido.

Em nota, o advogado relacionou a repercussão do caso na imprensa ao desfecho que culminou na troca de mensagens entre as polícias dos dois países. “Entretanto, antes mesmo de seu retorno ao Brasil, diversos veículos de comunicação passaram a noticiar sua iminente entrega às autoridades. Antes de reingressar em território nacional, contudo, Roberto Razuk Filho foi abordado por autoridades estrangeiras, que procederam à sua entrega à Polícia Federal, impossibilitando que a apresentação voluntária ocorresse nos moldes previamente requeridos e autorizados pelo Poder Judiciário”, justificou.
Pereira afirma que vai recorrer para reverter a prisão preventiva do cliente. “Buscando o restabelecimento de sua liberdade, sem prejuízo da demonstração de sua inocência no curso do devido processo legal”, disse o advogado, que sustenta a ausência de requisitos atuais que justifiquem a manutenção da custódia.
O caso remonta ao ano passado, quando a quarta fase da Operação Sucessione, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado, o GAECO, resultou na prisão de 20 pessoas, entre elas o próprio Neno Razuk e os irmãos Rafael e Jorge Razuk. A denúncia do Ministério Público Estadual aponta a prática de organização criminosa, roubos, corrupção passiva e ativa, violação de sigilo funcional, lavagem de dinheiro e contravenção penal ligada à exploração de jogos de azar.
Segundo o GAECO, a organização é comandada por Neno Razuk e busca ocupar o espaço deixado pelo desmantelamento do grupo até então liderado por Jamil Name Filho. A denúncia relaciona a facção a ao menos três assaltos armados contra “recolhes”, motociclistas responsáveis por recolher diariamente valores do jogo do bicho, então vinculados a uma organização rival vinda de São Paulo. Os crimes, segundo o MPE, aconteceram todos no mesmo dia, 16 de outubro de 2023, à luz do dia, com uso de pistolas, mais de um veículo e atuação conjunta de vários agentes.
O Ministério Público destaca que o envolvimento da família Razuk com esse tipo de crime não é fato isolado nem recente. A denúncia cita o patriarca Roberto Razuk, apontado como referência há décadas na exploração ilegal do jogo do bicho, sobretudo em Dourados, cidade que é base eleitoral do próprio Neno Razuk e também de sua mãe, Délia Razuk, ex-prefeita do município. Enquanto a troca de mensagens sobre Neno Razuk entre as polícias segue sem desfecho formal divulgado, a expectativa agora é pela manifestação oficial da Polícia Federal sobre os próximos passos do caso.
