Desinformação sobre HIV é barreira ao tratamento e agrava preconceito
Uma projeção elaborada pela iniciativa Tackle HIV alerta que a incapacidade de enfrentar o estigma ligado ao HIV pode causar cerca de 440 mil mortes evitáveis ao longo desta década.
O dado compõe um diagnóstico global sobre como preconceito e informações incorretas afastam pessoas da testagem e do início do tratamento, fatores que reduzem a eficácia das políticas de prevenção e cuidado.
Resultados da pesquisa e panorama no Brasil
O levantamento aplicado pela campanha Tackle HIV alcançou 2.006 adultos brasileiros por meio de questionário online e revelou visões difundidas sobre risco e sexualidade. Para 36% dos entrevistados homens heterossexuais não correm risco de contrair o HIV e, para 37%, o mesmo vale em relação a mulheres heterossexuais.
Apenas 48% dos participantes afirmaram já ter feito o teste de HIV e entre os 40% que cogitaram realizar o exame a maioria recusou alegando que “não se consideram em risco”.
Outra constatação do estudo foi que 19% ainda acreditam que quem vive com HIV não pode manter uma vida sexual ativa e que somente 29% sabiam que pessoas sob tratamento eficaz e com carga viral indetectável não transmitem o HIV em relações sexuais.
O Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, que reúne dados do ano anterior, registrou 39.216 casos de infecção pelo HIV no Brasil, sendo 38,4% desses na região sudeste.
Campanha global e vozes engajadas
A Tackle HIV é uma campanha internacional idealizada por Gareth Thomas em parceria com a ViiV Healthcare e organizações filantrópicas como a Terrence Higgins Trust, voltada a reduzir estigma, preconceito e desinformação sobre o vírus.
Gareth Thomas, representante e um dos idealizadores do projeto, conta “Esse estigma traz impactos enormes para a sociedade em geral: seja o medo de fazer o teste, o medo de tomar os medicamentos ou o medo criado pelo preconceito de conviver com pessoas que vivem com HIV”.
Ex-jogador profissional de rugby pelo País de Gales, Thomas foi o primeiro atleta em atividade a se declarar homossexual em 2009 e, dez anos depois, tornou pública a sua sorologia positiva para HIV, mantendo desde então atuação ativa contra a discriminação.
Ao reforçar a mensagem sobre avanços médicos e de ciência, a campanha mantém posicionamento claro sobre a importância do diagnóstico e do tratamento contínuo. “É fundamental passar a mensagem importante de que receber um teste positivo, com todos os avanços da ciência e da medicina, não é mais uma sentença de morte. Testar positivo significa que você pode começar o tratamento assim que receber o diagnóstico e viver uma vida normal, feliz e saudável, sem limitações mentais ou físicas causadas pelo vírus”.
Conforme divulgado pela Tackle HIV, o entendimento local das barreiras sociais orienta a atuação em diferentes países e regiões, requisito que a iniciativa busca mapear sempre que chega a um novo território.
Na esfera global, o Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids segue metas alinhadas à Agenda 2030 e ao objetivo de eliminar a Aids como ameaça de saúde pública. As metas “95-95-95” já foram alcançadas por países como Botsuana, Ruanda, República Unida da Tanzânia e Zimbábue.
O Brasil atingiu a primeira meta 95 em 2020, com 95% das pessoas vivendo com HIV conhecendo seu diagnóstico, e em 2024 registrou a terceira meta 95, referente à supressão da carga viral em 95% das pessoas em tratamento.
Na última terça-feira (28) o Governo Federal demonstrou interesse na profilaxia pré-exposição injetável que pode proteger pessoas saudáveis por até seis meses, e estuda a possibilidade de incorporar o método ao Sistema Único de Saúde.
O levantamento da Tackle HIV e os dados do Boletim Epidemiológico constituem as bases informacionais citadas ao longo deste texto e orientam as recomendações para reduzir a desinformação, ampliar a testagem e fortalecer a adesão ao tratamento antirretroviral.

