Mola gestacional é condição que exige interrupção da gravidez e acompanhamento rigoroso por risco de câncer

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A mola gestacional pode evoluir para um tumor maligno da placenta quando células anormais da placenta permanecem no útero após a interrupção da gestação e por isso exige diagnóstico e seguimento rigorosos.

Em um caso relatado por uma paciente atendida no ambulatório da Maternidade Escola da UFRJ, o desfecho ilustra a rapidez com que a situação pode mudar. Ao recordar o período que antecedeu o tratamento, ela lembra. “Em menos de três dias, eu vivi o dia mais feliz e o dia mais triste da minha vida. E, menos de um mês depois, eu estava com um câncer gerado de uma gestação. Foi muito difícil. A gente nunca imagina que vai passar por isso”

O professor de obstetrícia Antônio Braga coordena o Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da UFRJ, referência em atendimento e pesquisa. Ele destaca a frequência da doença no Brasil e as diferenças observadas em outros países, apontando possíveis fatores que ainda não foram plenamente esclarecidos pela ciência.

Braga explica as estatísticas observadas no Brasil e no exterior e a necessidade de investigação das causas por trás das variações. De acordo com ele, “Uma em cada 200 a 400 mulheres que engravidam no Brasil vai ter essa doença. Nos Estados Unidos, essa taxa é de uma a cada mil mulheres… Na Inglaterra, é de uma a cada duas mil. Tem investigação sobre as razões pra essa diferença. Fatores genéticos, imunológicos, alimentares… essas são as principais suspeitas. Mas nada ainda está bem estabelecido”

Como a mola se forma e quando se complica

A mola surge por erro na fecundação. Na mola incompleta há material genético paterno duplicado ou a fecundação por dois espermatozoides, resultando em placenta anômala e embrião com anomalias incompatíveis com a vida. Na mola completa, um óvulo sem DNA é fecundado por espermatozoide e forma-se apenas uma placenta anormal, sem embrião.

A conduta inicial é interromper a gestação e remover a mola por aspiração uterina para evitar hemorragia uterina e alterações sistêmicas como distúrbios tireoidianos e de pressão arterial. Em uma parcela dos casos, as células trofoblásticas se instalam no útero e progridem para tumor maligno, com possibilidade de metástase, sobretudo pulmonar. Braga assinala as diferenças de risco entre os tipos de mola, informando que menos de 5% das mulheres com mola parcial desenvolvem câncer e que entre aquelas com mola completa uma em cada cinco evolui para tumor maligno.

O prognóstico depende do diagnóstico precoce e do acompanhamento laboratorial. Após a retirada da mola, o exame histopatológico diferencia mola parcial de completa. Em seguida inicia-se um controle periódico do hormônio HCG, marcador tumoral dessa condição, e avaliações clínicas.

Ao explicar a forma como o diagnóstico e o seguimento são realizados, Braga afirma. “Esse é o único câncer da espécie humana que o diagnóstico não é histopatológico, não se faz biopsia. O diagnóstico é dado pelo hormônio da gravidez, esse que é o marcador tumoral da doença”

Tratamento, centros de referência e impacto social

Quando o HCG não cai até estabilizar nos níveis normais após a interrupção da gravidez, isso indica persistência da doença e a necessidade de tratamento oncológico, com quimioterapia. Braga ressalta que a maioria das mulheres tratadas adequadamente é curada e que a maternidade futura é possível após a cura.

Ao comentar sobre a evolução após terapia, o médico esclarece. “Felizmente, grande parte das mulheres que são adequadamente tratadas se curam. E, uma vez curadas, podem inclusive engravidar novamente. Fazem o pré-natal aqui conosco e tem seus bebezinhos aqui para completar suas famílias”

Em pacientes mais velhas ou que já tenham a família formada, a histerectomia pode ser recomendada. Foi o procedimento adotado por uma paciente de 45 anos que, após um aborto espontâneo, desenvolveu câncer de placenta cerca de um mês depois. Sobre o impacto emocional inicial ela relata. “Sinceramente, eu não conseguia nem pensar no luto, eu só pensava no câncer, porque câncer, para mim, era um nome terrível. Eu fiquei apavorada, porque eu nunca tinha ouvido falar em mola”

Sobre o suporte que recebeu durante o tratamento, a mesma paciente acrescenta. “Não teve um dia que eu não tivesse pessoas queridas comigo. Eu e as minhas irmãs íamos pra clínica como se fosse um passeio, todas de lençóis diferentes. Então, foi um momento atribulado, mas não angustiado”

O ambulatório da UFRJ atende cerca de 80 pacientes com mola por semana pelo Sistema Único de Saúde, incluindo mulheres de outras cidades e estados. Aproximadamente 30% delas têm plano de saúde, mas optam ou precisam do atendimento público. Um estudo do centro indica que pacientes acompanhadas fora de uma referência têm risco de morte entre 10 e 20 vezes maior, o que reforça a importância da centralização do cuidado.

Além do tratamento médico, a unidade oferece apoio social e psicológico e atividades de acolhimento como musicoterapia. A médica do ambulatório Gabriela Paiva enfatiza a fragilidade das mulheres no primeiro contato com o serviço e o esforço da equipe para reduzir a culpa e o isolamento. “A gestação vem com expectativas, não só da paciente, mas também da parceria, da família… Então, elas chegam aqui muito fragilizadas. Sempre, na primeira consulta, a gente frisa que isso acontece por acaso, que não é culpa dela e que ela não está sozinha”

Sobre a rotina de acompanhamento a equipe também orienta sobre logística e necessidade de acompanhante para consultas frequentes. A médica complementa com informações práticas e de acolhimento quando afirma. “Essas mulheres vão ficar, no mínimo, seis meses vindo aqui. É cansativo. E, às vezes, a gente tem que dar a notícia de que a mola virou um câncer. Por isso, a gente sempre pede para vir com um acompanhante. Mas as outras pacientes também ajudam no acolhimento. A mulher descobre que tem uma doença que ela nunca ouviu falar, mas aqui ela vê que tem mais gente passando por isso”

O relato da paciente que viveu tratamento oncológico depois da mola confirma a possibilidade de recuperação quando há acompanhamento adequado. Ela concluiu as sessões de quimioterapia e apresenta HCG normalizado, condição que indica cura, mas seguirá sob orientação médica antes de tentar nova gravidez porque um teste de gravidez positivo poderia mascarar a recidiva da doença.

Os dados e experiências reunidos no ambulatório da UFRJ reforçam a necessidade de diagnóstico precoce, tratamento em centros especializados e suporte clínico e psicossocial para mulheres afetadas pela mola gestacional.

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