Parceria com Arábia Saudita revela contradição dos EUA na questão nuclear
Os Estados Unidos e a Arábia Saudita divulgaram um acordo de cooperação nuclear de alcance que as autoridades descrevem como duradouro e de grande monta financeira, documento que não foi publicado na íntegra e que deverá passar por análise do Congresso. A aproximação foi anunciada em meio à escalada de violência no Oriente Médio e dois dias após os houthis do Iêmen impedirem a passagem de navios sauditas no Estreito de Bab el-Mandeb, afetando exportações e rotas marítimas.
A iniciativa acendeu alertas por abrir caminho para que Riade enriqueça urânio para fins declaradamente pacíficos mesmo quando Washington exige o fim do enriquecimento no Irã, acusando Teerã de buscar objetivos distintos. A Casa Branca afirma que a parceria não autoriza armas, mas críticos apontam uma contradição entre a prática e a retórica norte-americana frente a programas nucleares na região.
Francisco Carlos Teixeira da Silva, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, avaliou o propósito do movimento em termos estratégicos e de imagem para os sauditas, conforme declaração à Agência Brasil. “Isso é um reconhecimento da falência do ‘escudo americano’. Tudo isso se dá em meio a um bombardeio pesado do Irã contra a Arábia Saudita. Agora os EUA sugerem que os sauditas podem ter armas nucleares e, com isso, poderiam responder ao Irã com armas nucleares” A avaliação liga a oferta de cooperação a uma tentativa de reafirmar proteções norte-americanas diante de ataques recentes.
Grupos que monitoram a proliferação advertem para lacunas no texto e na prática da fiscalização e evocam cláusulas pendentes junto à Agência Internacional de Energia Atômica. “Os líderes sauditas, por vezes, manifestaram o desejo de desenvolver um ciclo de combustível completo, desde a extração de urânio até o reprocessamento do combustível irradiado. Isso não é típico de países que estão apenas iniciando programas de energia nuclear” Essa observação sustenta a preocupação com a extensão das capacidades reivindicadas por Riade.
Analistas lembram que a Arábia Saudita ainda não aceitou assinar um protocolo adicional que permitiria inspeções-surpresa por auditores internacionais, condição vista por muitos como essencial à confiança no caráter pacífico do programa.
Uma organização não governamental especializada assinalou riscos de pressa nas negociações e conectou a oferta aos vetores regionais de competição. “Fechar um acordo com a Arábia Saudita antes de resolver a questão nuclear iraniana seria insensato e míope” A entidade também recordou declaração de 2018 do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman segundo a qual Riade buscaria arma nuclear caso o Irã tivesse acesso a uma.
Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília, ponderou sobre o efeito do acordo no receio regional e na credibilidade dos compromissos internacionais, conforme informação veiculada pela Agência Brasil. “É alarmante porque, embora haja um compromisso para enriquecer o urânio para fins pacíficos, o fato é que, na trajetória do programa nuclear da Arábia Saudita, pode haver outros interesses no futuro que sejam diferentes do ponto de partida. Isso aumenta as incertezas na região” O comentário insere a cooperação num contexto histórico em que Washington pressionou outros Estados a abrir mão de armas nucleares, citando como exemplos o Brasil, o México e a África do Sul.
O tratamento dado pelos EUA a Riade também foi comparado à postura com a Coreia do Sul, que mantém 26 reatores e há décadas busca autorização para atividades de enriquecimento. “[Isso] expõe um flagrante duplo padrão na política nuclear americana. Washington parece ter aberto caminho para que a Arábia Saudita obtenha direitos de enriquecimento para usinas nucleares que ainda não foram construídas, enquanto os nega à Coreia do Sul, que já opera 26 reatores” A observação foi publicada por correspondente do The New York Times em Seul.
As negociações entre Washington e Riade não são novas e remontam a 2008, com avanços e retrocessos. Em 2020 o Escritório de Prestações de Contas do governo dos EUA reportou falta de “progressos significativos” entre os países, citando divergências persistentes sobre condições de não proliferação, incluindo a assinatura de um Protocolo Adicional e restrições ao enriquecimento e ao reprocessamento de material nuclear.
A relação foi afetada por episódios políticos e de imagem que influenciaram as decisões norte-americanas. Durante a administração de Joe Biden o impasse se manteve e o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi no consulado saudita em Istambul intensificou críticas nos EUA. A investigação turca apontou que Khashoggi foi esquartejado e que o corpo foi dissolvido em substância química por agentes ligados ao regime, fato que mobilizou a opinião pública estadunidense contra Riade.
A política mudou no segundo mandato do presidente Donald Trump e em novembro do ano anterior os dois países assinaram uma declaração conjunta que indicou avanço nas tratativas. Com a escalada do conflito na região, a administração norte-americana tornou público o acordo, que agora aguarda análise do Legislativo e segue no centro do debate sobre prioridades de segurança e não proliferação.

