Dia da África registra ampliação da agenda do Brasil com o continente

news 184716 1779728181

Na data dedicada ao continente, a agenda brasileira se concentra em ampliar laços políticos, comerciais e científicos com países africanos, com atividades que incluem um seminário do Itamaraty e a participação do presidente no 1º Fórum de Reitores Brasil-África organizado pelo MEC.

Desde 2023 o governo federal intensificou a presença diplomática e multiplicou viagens de alto nível, totalizando sete missões presidenciais a nações africanas. Foram visitados a África do Sul em duas ocasiões, além de Angola, São Tomé e Príncipe, Egito, Etiópia e Moçambique, e o país também recebeu seis chefes de Estado africanos em Brasília, entre eles Patrice Talon do Benin, Bola Tinubu da Nigéria e João Lourenço de Angola, com assinaturas de acordos e memorandos de entendimento.

Comércio, números e potencial

O comércio entre Brasil e África respondeu por 5,70% do fluxo comercial brasileiro em 2025, somando US$ 23,7 bilhões de corrente comercial e registrando superávit de US$ 7,2 bilhões a favor do Brasil. Em comparação, a Europa representa 31,95% do comércio exterior brasileiro e a América do Sul 17,28%.

Desde 2020 houve um crescimento de 52% nas trocas com o continente, embora 2025 tenha apresentado queda de 2,3% em relação a 2024. Se comparado com 2023, primeiro ano do atual governo, o comércio com a África aumentou 16%.

O secretário de África e Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Carlos Sérgio Sobral Duarte, explicou à Agência Brasil que

“É um continente muito variado e com muitas oportunidades econômico-comerciais que o Brasil tem procurado aproveitar. No contexto atual, de fechamento maior dos países desenvolvidos em geral, faz mais ainda sentido buscar uma diversificação. Os países africanos são um mercado, em termos de população, potencial e de juventude, realmente muito grande”

O diplomata também ressaltou a necessidade de vencer desconhecimento recíproco, complementando a agenda política com eventos de aproximação.

“Existe um certo desconhecimento que também precisa ser vencido, de oportunidades lá e de oportunidades aqui. Esses eventos que realizamos complementam essa atividade política, a começar pelo presidente e os agentes políticos do governo”

Ciência, cultura e memória

Na área de ciência e tecnologia o Ministério da Ciência e Tecnologia relançou o Programa de Cooperação Afro-Brasileira ProÁfrica, liderado pelo CNPq, com previsão de investir R$ 25 milhões em pesquisa e inovação conjuntas em temas como ambiente, sustentabilidade, agricultura, energia e saúde.

A ministra Luciana Santos afirmou no Seminário do Dia da África no Itamaraty que

“Queremos ser um instrumento concreto desse compromisso do nosso governo, aproximando as comunidades científicas, desenvolvendo tecnologias conjuntamente e criando soluções inovadoras que respondam aos desafios comuns que temos no Brasil e no continente africano”

O MCTI havia divulgado em abril outro edital com investimento de R$ 50 milhões para capacitação de aproximadamente 2 mil técnicos, pesquisadores, estudantes e agricultores em soluções científicas para produtividade agrícola e segurança alimentar.

Na dimensão cultural o Ministério da Cultura assinou acordos com Angola para integrar arquivos históricos da escravidão e ampliar cooperação em cultura e artes, numa tentativa de superar vínculos limitados ao petróleo e ao agronegócio.

O enlace histórico entre Brasil e África permanece presente nas iniciativas. O país recebeu cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados entre os séculos 16 e 19, e relações coloniais conduziram, em um momento histórico, a proposições de anexação de Angola ao Brasil no processo de independência.

Na cerimônia no Itamaraty o decano do corpo diplomático africano em Brasília, embaixador de Camarões Martin Agbor Mbeng, agradeceu o voto do Brasil na ONU pelo reconhecimento da escravidão de africanos como maior crime contra a humanidade e destacou o papel de instituições brasileiras na cooperação.

“[Essas instituições] têm capacidade para construir programas com parceiros africanos, não para a África, mas com a África. Essa distinção é importante. Uma verdadeira parceria significa planejamento compartilhado, responsabilidade e prestação de contas compartilhadas”

Mbeng também elogiou a posição do Brasil em defesa de um sistema multilateral de comércio baseado em regras, em especial da Organização Mundial do Comércio.

Analistas e pesquisadores ponderam, porém, limites e desafios para transformar intenções em investimentos. A professora de relações internacionais da UFBA Elga Lessa de Almeida avaliou que condições econômicas atuais restringem a internacionalização como observado em mandatos anteriores.

“[Nos primeiros governos Lula] a linha de financiamento de internacionalização das empresas, sobretudo do setor de infraestrutura, como Petrobras e Odebrecht, conseguiam recursos para sua atuação nesses países. Isso a gente já não observa tanto”

A professora acrescentou que

“No atual momento econômico, você não tem um aporte tão expressivo na cooperação para o desenvolvimento para grandes projetos dentro do continente”

O pesquisador Eden Pereira Lopes da Silva, do Núcleo de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul, avaliou que houve enfraquecimento da política para África entre 2017 e 2022 e que o atual governo retomou parte do diálogo com sucessos pontuais.

“Acho que o governo Lula 3 conseguiu, digamos, com algum sucesso, retomar esses laços e esse diálogo com alguns países no continente africano”

O pesquisador também apontou foco em cooperação agrícola como prioridade e citou capacidade técnica brasileira aplicável ao continente.

“O Brasil tem empresas como a Embrapa que podem desenvolver soluções no sentido de elevar a capacidade agrícola de alguns países na África que enfrentam o dilema de terem capacidade produtiva na agricultura restringida”

Além das ações mencionadas, o Itamaraty mantém a programação do dia com debates e seminários sobre parceria entre os países, enquanto o Executivo busca combinar diplomacia, ciência e instrumentos financeiros para ampliar as relações bilaterais sem, entretanto, oferecer garantias de que os aportes serão iguais aos observados em gestões anteriores.

PUBLICIDADE


andorinha

Veja também