Durigan diz que conversa de Lula com Trump registrou tom de respeito mútuo
O encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizado na semana passada em Washington e com duração de três horas, ocorreu em ambiente que o ministro da Fazenda Dario Durigan qualificou como marcado por deferência e respeito mútuo. Durigan participou da reunião e detalhou os pontos tratados em entrevista ao programa Na Mesa com Datena, na TV Brasil, transmitida nesta terça-feira (12).
Durigan relatou que a conversa inicial teve um tom informal e centrou-se nas trajetórias pessoais dos dois líderes. “A conversa foi muito franca e eu fiquei muito impressionado com o nível de deferência do presidente Trump ao presidente Lula”. A fala foi usada pelo ministro para descrever o clima da abertura antes dos debates sobre políticas e interesses estratégicos.
Comércio e tarifas
O eixo econômico esteve entre os temas centrais, com o governo brasileiro contestando a narrativa de que os Estados Unidos teriam prejuízo comercial na relação bilateral. Durigan mencionou dados apresentados pela administração norte-americana para contextualizar a discussão. “Os números da administração Trump mostraram que o déficit [comercial] brasileiro [com os Estados Unidos] foi de US$ 30 bilhões em 2025”. Em seguida, o ministro enfatizou que o Brasil compra serviços, tecnologia e produtos americanos em volume relevante, o que beneficia a economia dos Estados Unidos.
Na argumentação do governo brasileiro, medidas tarifárias nos moldes aplicados à China seriam inadequadas para o caso do Brasil. “O Brasil não merece ser punido [com tarifas], o nosso dólar está indo para os Estados Unidos”. A defesa apresentada por Durigan buscou afastar a aplicação de penalidades que, na visão do país, não refletiriam a natureza da relação comercial entre as partes.
Segurança, drogas e minerais
Durante a reunião foram tratadas também questões de segurança pública e combate ao crime organizado com foco em cooperação para rastreamento financeiro. O Brasil propôs intensificar ações para seguir recursos associados a facções criminosas e estruturas de lavagem de dinheiro em jurisdições usadas como refúgio. “Empresas brasileiras devedoras estão botando dinheiro em Delaware, que é um paraíso fiscal”.
Na mesma linha, o governo brasileiro apontou que grande parte das armas ilegais apreendidas no país tem origem em território norte-americano. “A arma que é apreendida no Brasil tem como origem, na maioria dos casos, os Estados Unidos”. O avanço das drogas sintéticas também compôs a pauta, com a menção direta a fluxos transnacionais. “Droga sintética vem dos Estados Unidos para o Brasil; nós queremos ajudar a evitar esse contrabando”.
Como resultado prático das conversas, ficou acertada a integração entre a Receita Federal brasileira e a aduana americana para compartilhamento de inteligência e rastreamento financeiro, medida que o ministro apresentou como fundamental no combate às estruturas criminosas. “O que funciona é você asfixiar a engrenagem que financia o crime”.
A exploração de minerais estratégicos foi outro ponto de destaque, com apresentação da estratégia brasileira para insumos essenciais à indústria tecnológica e à transição energética, citando nióbio, grafeno e terras raras. “No Brasil, a gente quer dar segurança jurídica para um negócio que interessa ao mundo: minerais críticos”. Durigan afirmou que Lula deixou claro o objetivo de evitar um padrão histórico baseado apenas na exportação de matéria-prima e promover a industrialização local.
Lula também relacionou a defesa da soberania econômica a posicionamentos nacionalistas observados em outras administrações. “Se você é ‘América em primeiro lugar’, eu estou aqui dizendo que o Brasil está em primeiro lugar”. No mesmo bloco de ideias, o presidente brasileiro destacou a intenção de agregar valor internamente. “Não queremos repetir um padrão histórico, tira tudo daqui e depois eu compro a placa de aço industrializada. Eu quero incentivar a industrialização no Brasil”. “Não queremos repetir um padrão histórico que a gente viu com o ouro ou a cana-de-açúcar.”
Os aspectos pessoais do encontro geraram reações emocionais entre os presentes, segundo Durigan. Trump teria demonstrado surpresa com relatos da infância de Lula, incluindo a informação de que o presidente brasileiro afirmou ter comido pão pela primeira vez aos 7 anos de idade, e com o fato de Lula não possuir diploma universitário mas ter ampliado a rede federal de universidades durante seus governos.
Durigan também relatou que Trump reagiu com espanto ao tomar conhecimento do período em que Lula esteve preso e das decisões judiciais pelas quais o ex-presidente optou por não aceitar alternativas como prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. “A conversa foi muito franca e eu fiquei muito impressionado com o nível de deferência do presidente Trump ao presidente Lula”. Ainda conforme o ministro, ambos os chefes de Estado ficaram emocionados quando Lula narrou os cerca de dois anos na cadeia.
Houve momentos de descontração na comitiva, inclusive durante o almoço oficial, quando Trump teria reclamado de um detalhe do prato. “Eu não gosto de fruta na minha salada”. O episódio foi relatado por Durigan como exemplo do ambiente cordial que, na avaliação do governo brasileiro, abriu espaço para avanços nas negociações comerciais, diplomáticas e estratégicas.
O governo avaliou que, além das declarações e acordos pontuais, o tom de respeito e as definições práticas anunciadas consolidaram uma base para diálogo contínuo entre os dois países.

