Ilha memória da escravidão é sustentada pelo turismo e gera renda para moradores

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Gorée, inscrita como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco desde 1978, transforma o fluxo turístico em renda cotidiana para sua população, que soma aproximadamente 1,7 mil habitantes conforme o censo de 2023 da Agência Nacional de Estatística e Demografia (ANSD).

Um mês depois de as Nações Unidas terem declarado a escravidão de africanos como o mais grave crime já cometido contra a humanidade, a circulação de turistas segue sendo a principal saída econômica da ilha, onde pesca e comércio local completam a economia.

Localizada a cerca de 3 quilômetros do porto de Dacar, a pequena ilha de 17 hectares é alcançada por balsas em trajeto de menos de meia hora e concentra a visita à Casa dos Escravos, construída em dois andares e marcada pela chamada Porta do Não Retorno.

No cais de Dacar, onde filas se formam para embarcar na balsa com destino a Gorée, a vendedora Fama Sylla aborda os turistas antes do embarque e busca atrair compradores para os artesanatos que vende na ilha.

“Que tal visitar o meu box de vendas lá? Tenho bijuterias e muitos itens típicos”

Na ilha, o comércio de peças artesanais é frequentemente uma tradição familiar e um meio de subsistência para várias gerações.

Ao justificar sua dedicação ao ofício, Fama resumiu a dependência local do setor turístico e relatou o histórico do ponto de venda que mantém em atividade.

“O turismo é muito importante aqui porque vivemos disso, vivemos do turismo”

“Temos uma loja que era da minha avó. Isso continua até hoje, passou para minha mãe e para nós, os filhos”

Perto do cais, o artesão Chaua Sall espera por visitantes com esculturas de madeira que representam animais africanos emblemáticos e usa o contato direto para apresentar seu trabalho.

“Quero vender coisas bonitas para as pessoas”

“Aqui você recebe turistas de vários lugares: França, Espanha, Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Itália – pessoas do mundo todo vêm para a Ilha de Gorée”

Hospitalidade e comércio

A interação com estrangeiros é parte da estratégia de quem vive do turismo em Gorée, que inclui aprender saudações em línguas dos visitantes para facilitar o contato.

“Bom dia”

As rotinas econômicas da ilha são simples e centradas em dois pilares, segundo moradores que recebem os turistas diariamente.

“As mulheres têm lojas, e os homens pescam ou trabalham como guias turísticos. É assim que trabalhamos aqui nessa pequena Ilha de Gorée. Não temos fábricas, nada além de turismo e pesca”

“Somos muito gentis e acolhedores com pessoas do mundo todo que vêm visitar a Casa dos Escravos. E, depois da visita, se tiverem tempo, não as obrigamos a ir ao mercado, mas, se quiserem, podem passar lá para ver o que fazemos”

Arte, memória e futuro

Oficinas e ateliês da ilha integram os roteiros guiados, onde demonstradores trabalham técnicas tradicionais e contemporâneas diante dos visitantes, na tentativa de transformar a demonstração em venda.

“Eu sou artista e deixei tudo para viver da pintura, para ganhar a vida com quadros, porque meus pais não tinham condições suficientes para nos sustentar”

“Por isso, preferi estudar na escola de belas-artes e, assim, consigo ganhar a vida”

“Também temos mulheres, temos filhos, e, com essas pinturas, até tentamos construir casas para viver melhor. A ilha é realmente calma e tranquila, não há grandes problemas, como a poluição”

“Em relação à escravidão, procuramos deixar isso no passado. O essencial, para nós, jovens da ilha, é tentar todos os dias ganhar a vida da melhor maneira possível, sempre pelo caminho certo. É assim que vivemos hoje”

Quem atua como guia leva relatos históricos aos visitantes e conecta o espaço físico da Casa dos Escravos a memórias individuais e coletivas, incluindo passagens célebres de visitantes que emocionaram a todos.

O guia Mamadou Bailo Diallo remete à visita do líder sul-africano Nelson Mandela e descreve a reação de quem percorre as celas históricas.

“Eu percebo que algumas pessoas brancas choram. A escravidão é vergonhosa para elas. É uma questão de humanidade, não de cor”

Na ilha também existe um marco em homenagem a Nelson Mandela com a inscrição

“Ao fazermos a nossa luz brilhar, oferecemos aos outros a oportunidade de fazer o mesmo”

Visitantes locais e especialistas consideram Gorée um espaço de ensino e lembrança, objetivo que se reforça com excursões de alunos vindos de escolas de Dacar ao longo do dia.

“Este lugar representa uma memória viva, um capítulo doloroso da história que é essencial preservar para que nunca seja esquecido”

“Permite-nos homenagear os milhões de pessoas que sofreram e transmitir esta história às gerações futuras, para que possam aprender com ela”

“Visitar este lugar convida a uma profunda consciência das consequências humanas da escravatura e da importância de defender a dignidade humana em todo o mundo”

O fluxo turístico, portanto, serve simultaneamente como mecanismo de conservação da memória e como motor econômico, integrando comércio, arte e educação no cotidiano de Gorée.

O repórter viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Exterior.

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