Palestinos vão às urnas em eleição municipal com voto em Gaza e baixa adesão
Neste sábado os palestinos participaram de eleições municipais que, pela primeira vez em cerca de duas décadas, incluíram urnas na Faixa de Gaza, na cidade de Deir al-Balah, enquanto a apuração das cédulas teve início imediatamente e os resultados foram anunciados como esperados ainda entre sábado e domingo.
A participação variou de forma marcada entre os territórios, com 22,7% de comparecimento em Deir al-Balah e 53,44% na Cisjordânia conforme dados oficiais divulgados pelas autoridades eleitorais, índice que evidencia um engajamento limitado em parte do território.
O Comitê Central Eleitoral Palestino informou que mais de um milhão de eleitores estavam habilitados a votar, entre eles cerca de 70 mil residentes da Faixa de Gaza, número que inclui quem pôde participar no único ponto do enclave onde a votação foi viabilizada.
A Autoridade Palestina em Ramallah buscou com a votação afirmar sua autoridade sobre áreas de Gaza das quais foi expulsa pelo Hamas em 2007 e sobre as quais espera retomar espaço político, segundo posicionamentos oficiais apresentados durante o dia de votação.
O presidente Mahmoud Abbas votou em Al-Bireh, região próxima a Ramallah, e reiterou a pretensão da administração central sobre o território palestino. “Gaza é parte inseparável do Estado da Palestina. Portanto, trabalhamos por todos os meios para garantir que as eleições ocorram em Deir al-Balah, a fim de afirmar a unidade das duas partes do país”.
Na seção eleitoral de Deir al-Balah o eleitor Mamdouh al-Bhaisi compareceu para votar e procurou transmitir um sentimento de retomada democrática entre moradores que enfrentam a crise humanitária no enclave. “Como palestino e filho da Faixa de Gaza, sinto orgulho de que, após esta guerra, o processo democrático esteja retornando”.
Para analistas a adesão reduzida em Gaza reflete prioridades de sobrevivência em meio à devastação e à continuidade da crise humanitária, enquanto na Cisjordânia a participação também foi afetada por um boicote praticado por algumas facções, segundo análise de Hani Al-Masri, analista político na Cisjordânia.
Algumas forças boicotaram o pleito em protesto contra exigências feitas pela Autoridade Palestina a candidatos, entre elas apoio a acordos que preveem o reconhecimento do Estado de Israel, e o Hamas, que governa Gaza desde 2007, não apresentou formalmente uma lista de candidatos, embora uma das chapas em Deir al-Balah tenha sido percebida por moradores e analistas como alinhada ao movimento. O Hamas informou que respeitará os resultados e fontes relataram que policiais civis ligados ao grupo foram mobilizados para proteger seções eleitorais no enclave.
O pleito ocorre em meio a negociações internacionais de supervisão de Gaza que têm avançado pouco desde o cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, em outubro, e ao mesmo tempo conta com o amplo apoio de governos europeus e árabes à eventual retomada da governança da Autoridade Palestina no território, com a meta de um Estado palestino que abranja Gaza, Jerusalém Oriental e a Cisjordânia.
Autoridades da Autoridade Palestina enfrentam ainda pressão financeira decorrente da retenção pela Israel da arrecadação de impostos recolhida em nome da administração palestina, medida que tem agravado dificuldades para pagamento de salários. Israel justificou a retenção como protesto contra pagamentos de assistência social a prisioneiros e a familiares de mortos por suas forças, argumento que o Estado israelense apresenta como inibidor de incentivos a ataques.
O governo israelense também tomou medidas para facilitar a aquisição de terras por colonos na Cisjordânia e o ministro das Finanças Bezalel Smotrich tem repetido a frase “Continuaremos a matar a ideia de um Estado palestino” em seu posicionamento público, sinalizando uma orientação contrária à criação de um Estado palestino nas condições pretendidas pela Autoridade Palestina e apoiada por parte da comunidade internacional.
As eleições locais de sábado representam o primeiro pleito realizado em Gaza desde 2006 e as primeiras eleições palestinas desde o início do conflito atual há mais de dois anos, iniciado com o ataque transfronteiriço do Hamas contra comunidades no sul de Israel. As últimas eleições municipais na Cisjordânia ocorreram há quatro anos.
Em Deir al-Balah, que sofreu danos relativamente menores do que outras localidades de Gaza após as operações desde 2023, listas com candidatos foram afixadas em prédios, cena incomum no restante do enclave onde a destruição generalizada foi citada pelo comitê eleitoral como motivo para a impossibilidade de realização de votação. Parte da Faixa de Gaza permanece sob controle israelense e o restante sob o domínio do Hamas, fato que limitou a extensão do pleito.
Munif Treish, candidato na Cisjordânia, buscou projetar o pleito local como um possível ponto de partida para eleições mais amplas e declarou expectativa sobre o desdobramento do processo democrático. “Esperamos que o procedimento realizado hoje seja coroado com eleições legislativas e presidenciais”.

