Lula pede coerência dos progressistas em discurso para milhares na Espanha
No evento Mobilização Progressista Global (MPG), reunindo ativistas e organizações de esquerda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu postura coerente dos progressistas ao tratar das promessas eleitorais e das políticas públicas. A plateia foi estimada em mais de 5 mil pessoas e contou com a presença de outros chefes de Estado.
Ao abrir a participação diante do público, o presidente enfatizou a necessidade de não se envergonhar da identidade política em democracias contemporâneas. “Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade”
Em seguida, Lula fez uma crítica contundente às consequências das políticas econômicas dominantes e ao papel que partidos de esquerda acabaram desempenhando na manutenção dessa ortodoxia. “O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema”
Retomando a ideia de coerência como princípio político, Lula disse que os progressistas não devem trocar programas por acordos que fragilizem o conteúdo eleitoral e social de seus mandatos. Ele condensa essa exigência nas práticas cotidianas de governo e na execução de políticas que alcancem diretamente a população mais vulnerável.
Ao detalhar o que entende por prioridades públicas, o presidente listou expectativas sociais que, segundo ele, estão alinhadas com a agenda progressista. “Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se veja como progressista. Ela quer o que nós propomos. Ela quer comer bem, morar bem, escolas de qualidade, hospitais de qualidade, uma política climática séria e responsável, uma política de meio ambiente à altura. Ela quer um mundo limpo e saudável, um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada, um salário que permite uma vida confortável”
Lula acusou a extrema-direita de explorar o desapontamento gerado por promessas não cumpridas e de transformar essa frustração em um discurso de ódio contra grupos historicamente vulneráveis. “Canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras, falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas, que passaram a ser vítimas do discurso de ódio”
Mais cedo no mesmo dia, o presidente participou da quarta edição do Fórum Democracia Sempre, iniciativa lançada em 2024 e organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez. A reunião contou com a presença dos presidentes Yamandú Orsi, Gustavo Petro, Ciyril Ramaphosa, Claudia Sheinbaum e do ex-presidente Gabriel Boric, entre outros líderes internacionais.
No debate sobre as causas da desigualdade global e a concentração de renda, Lula apontou os grandes detentores de capital como responsáveis pelo agravamento da crise socioeconômica e pelo reforço de mecanismos que dificultam a mobilidade social. “Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam os algoritmos. A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas, é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser sempre estar ao lado do povo”
Referindo-se aos governos com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, o presidente voltou a usar a expressão “senhores da guerra” para criticar os gastos militares e a prioridade dada às armas em detrimento de políticas sociais globais. “O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências, sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas. Ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado, defender que a paz faça prevalência sobre a força, é combate a fome e proteger o meio ambiente, é restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes”
Ao abordar episódios recentes no Brasil, o presidente apontou riscos concretos à democracia e lembrou ameaças que, segundo ele, chegaram a prever a ocupação das ruas por tanques e violência contra autoridades eleitas. “No Brasil, ela [extrema-direita] planejou um golpe de Estado. Orquestrou uma trama que previa tanques na rua e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral. O papa Leão XIV disse que a democracia corre o risco de se tornar uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas. Nosso papel é desmascarar essas forças, desmascarar aqueles que dizem estar do lado do povo, mas governam para os mais ricos”
Para marcar o caráter prático da defesa democrática, Lula relacionou a qualidade de vida às condições reais de exercício dos direitos civis e sociais. “Não é democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida. Não há democracia quando um neto perde seu avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor de sua pele, quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher. Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança”
Agenda na Europa
Após a participação na Espanha, Lula segue para a Alemanha, onde estará presente na Hannover Messe, maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, e terá encontro com o chanceler Friedrich Merz. A viagem será concluída com uma visita de Estado a Portugal, incluindo compromissos em Lisboa com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

