Peru registra eleição com 35 candidatos e cenário sem favorito
O Peru realiza neste domingo a eleição geral que pode aprofundar a instabilidade política do país e definir o sucessor do décimo chefe do Executivo em apenas dez anos, em razão de renúncias e processos de impeachment consecutivos. A expectativa é que a apuração comece a ser divulgada a partir da meia-noite, e os eleitores também escolherão 130 deputados e 60 senadores para mandatos de cinco anos.
A disputa presidencial reúne 35 candidatos depois que um 36º concorrente morreu em um acidente de carro durante a campanha. Com um eleitorado de cerca de 27 milhões, o país volta a contar com um Senado após 33 anos de paralisação, decisão formalizada em 2024 quando o Congresso restabeleceu o sistema bicameral mesmo após a população ter rejeitado a mudança em plebiscito em 2018.
Candidaturas e previsões
Keiko Fujimori aparece na liderança das intenções de voto com cerca de 15 por cento e é hoje a principal aposta para assegurar uma vaga no segundo turno, marcado para 7 de junho. Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou de 1990 a 2000, ela já perdeu o confronto final nas eleições de 2011, 2016 e 2021, e enfrenta um elevado índice de rejeição que tende a limitar seu crescimento eleitoral.
Não há, porém, um adversário consolidado para o segundo turno, já que as demais candidaturas aparecem em um amplo empate técnico. Entre os nomes da direita se destacam Rafael López Aliaga, conhecido como Porky, ex-prefeito de Lima frequentemente comparado a Donald Trump e ao presidente argentino Javier Milei por seu discurso ultraconservador e defesa radical do livre mercado, e o humorista Carlos Álvarez.
No campo de esquerda o panorama é ainda mais fragmentado, com vários postulantes próximos dos 5 por cento das intenções de voto. Roberto Sánchez figura entre os destaques após receber o apoio do ex-presidente Pedro Castillo, tendo sido ministro do Comércio Exterior e Turismo durante o governo deste. O partido que elegeu Castillo, o Peru Libre, inscreveu Vladimir Cerrón, rompido com o ex-chefe do Executivo no início do mandato. Outros nomes citados nesse campo são Ricardo Belmont, prefeito de Lima entre 1990 e 1995, e o economista Alfonso López-Chau, ex-diretor do Banco Central entre 2006 e 2012.
Gustavo Menon, professor de pós-graduação em Integração da América Latina na Universidade de São Paulo e também da Universidade Católica de Brasília, avalia as implicações externas do pleito para a competição comercial entre China e Estados Unidos na região. “Essa eleição é decisiva do ponto de vista das correntes políticas da direita para conter esse avanço chinês no fluxo comercial com diferentes países na América do Sul”
O professor chama atenção para o papel do porto de Chancay na maior conexão do Peru com rotas comerciais da Ásia e do Pacífico e para as sinalizações de Fujimori em direção a uma aproximação maior com os Estados Unidos, em meio à política de Trump de entender “a América Latina como uma região de sua histórica influência”. Em paralelo, Menon observa que Washington tem firmado acordos militares com países latino-americanos alinhados com sua política na tentativa de conter as relações comerciais entre a China e os demais estados da região.
Sobre o quadro interno, Menon adverte para o risco de governabilidade diante da dispersão partidária. “O risco é que essa fragmentação política inviabilize, em grande medida, a governabilidade do novo presidente que está para ser eleito. Podemos apenas cravar que, para o segundo turno, pode ir qualquer um”
Contexto político recente
O processo eleitoral ocorre em um cenário marcado por crises sucessivas desde 2021, quando Pedro Castillo, professor rural de centro-esquerda, surpreendeu ao vencer a disputa presidencial e acabou afastado após tentar dissolver o Parlamento. Castillo foi preso e, em novembro de 2025, condenado a mais de 11 anos de prisão por rebelião.
Assumiu a vice-presidente Dina Boluarte, cujo governo reprimiu manifestações contrárias à destituição de Castillo, com um saldo de 49 mortos, conforme cálculo da Anistia Internacional. A baixa aprovação levou à saída de Boluarte, destituída pelo Congresso em 10 de outubro de 2025.
Em seguida, o presidente do Parlamento José Jerí assumiu a Presidência em caráter interino, mas teve o mandato derrubado pelo Legislativo em 17 de fevereiro do mesmo ano. Por fim, José María Balcázar Zelada passou a exercer o cargo interinamente após eleição indireta promovida por um Congresso apontado como o centro de poder de fato no país.
A votação e o resultado inicial das urnas serão observados na região e além dela, com atores comerciais e políticos atentos ao desfecho e às possíveis implicações para a relação entre o Peru, a China e os Estados Unidos.

