Países da AIE liberam reservas de petróleo para tentar conter alta nos preços
A coalizão de 32 países vinculada à Agência Internacional de Energia aprovou, por unanimidade, a liberação de 400 milhões de barris das reservas emergenciais, medida destinada a estabilizar o mercado internacional de combustíveis diante da guerra no Irã.
O diretor executivo da AIE, Fatih Birol, ressaltou a escala inédita da ação e sua finalidade imediata
“[É] o maior volume de reservas emergenciais de petróleo da história da nossa agência. Os 400 milhões de barris de petróleo estão disponíveis no mercado para compensar a perda de oferta decorrente do fechamento efetivo do Estreito [de Ormuz]”
Apesar do anúncio, os preços seguiram em alta. Na quarta-feira, o barril de petróleo Brent operava em alta de 4%, cerca de 30% acima do nível anterior ao início do conflito, enquanto operadores recorrem às reservas para tentar aliviar pressões sobre oferta e demanda.
Especialistas, porém, apontam limites temporais à medida. Ticiana Álvares, diretora técnica do Ineep, avaliou que o montante pode reduzir impactos de curto prazo, mas não anulará consequências caso as tensões se perpetuem
“Trata-se de uma medida que pode contribuir para amortecer, no curto prazo, os impactos do conflito. No entanto, caso haja um prolongamento das tensões, os efeitos sobre o mercado de petróleo e gás global tendem a se aprofundar, podendo resultar em um quadro mais complexo no longo prazo”
O volume anunciado corresponde a cerca de 20 dias do fluxo diário que costuma passar pelo Estreito de Ormuz e representa um terço dos aproximadamente 1,2 bilhão de barris mantidos como reserva pelos países membros da agência. Outros 600 milhões de barris referem-se a estoques da indústria retidos por obrigação governamental.
Não foi fixado prazo uniforme para a liberação física dessas reservas, já que cada país-membro deve disponibilizar os volumes conforme suas circunstâncias internas, conforme detalhado pela própria agência
“As reservas de emergência serão disponibilizadas ao mercado num prazo adequado às circunstâncias nacionais de cada país-membro e serão complementadas por medidas de emergência adicionais adotadas por alguns países”
A preocupação da AIE se estende ao gás natural liquefeito, com poucas alternativas imediatas para substituir cargas que deixaram de chegar do Catar e dos Emirados Árabes Unidos. Fatih Birol chamou atenção para o impacto mais amplo no setor energético
“O fornecimento global de energia foi reduzido em cerca de 20%, e os equilíbrios de mercado subjacentes antes deste conflito eram ainda mais apertados do que no caso do petróleo. A Ásia é a região mais afetada no setor de gás. Os países de alta renda na Ásia estão competindo acirradamente com a Europa e outros importadores por cargas de GNL disponíveis”
O Irã intensificou ameaças a embarcações que transitem pelo Estreito de Ormuz e que possam beneficiar Estados Unidos, Israel ou seus aliados. A Guarda Revolucionária Islâmica prometeu obstruir passagem de cargas contrárias aos interesses de Teerã
“nem um único litro de petróleo passará pelo Estreito de Ormuz em benefício dos EUA e seus aliados”
Autoridades iranianas relataram ainda ter atingido dois navios que teriam tentado cruzar a via sem autorização, um de propriedade israelense e outro de bandeira liberiana.
O episódio motivou reações diplomáticas e reuniões de cúpula. O presidente da França, Emmanuel Macron, convocou os países do G7 para debater desdobramentos da crise energética; o grupo inclui Estados Unidos, Canadá, Japão, Itália, Reino Unido, Alemanha e França.
Nos Estados Unidos, a alta nos preços de atacado e no custo nas bombas foi imediata, com aumento de 60 centavos o galão, elevando o valor médio para US$ 3,50 por galão, o maior nível desde maio de 2024, segundo reportagem da Reuters.
A composição majoritariamente europeia da AIE inclui também membros das Américas, como Canadá, México, Chile e Estados Unidos, o que confere alcance global às medidas adotadas e às coordenações que devam seguir nas próximas semanas.

