Resistência do Irã pressiona Estados Unidos a encerrar guerra
A capacidade de resistência da República Islâmica do Irã, combinada com ataques a sistemas dos Estados Unidos na região e efeitos sobre o comércio de petróleo, tem elevado a pressão sobre a Casa Branca para pôr fim ao conflito sem alcançar a mudança de regime em Teerã, segundo especialistas consultados pela Agência Brasil.
O cientista político e especialista em geopolítica Ali Ramos destacou o papel das ações iranianas na degradação de capacidades americanas no terreno.
“Os EUA não têm como derrubar o governo iraniano sem invasão terrestre, o que traria baixas gigantescas. A topografia do Irã inviabiliza qualquer ação rápida. Os EUA simplesmente entraram num atoleiro e Trump não sabe como sair”
Imagens de satélite e vídeos analisados pelo New York Times apontam para danos a radares em países do Golfo que eram usados para interceptação de mísseis. Ramos relacionou isso ao aumento das vulnerabilidades de defesa na região.
“Toda essa cobertura satelital e de radar faz com que os EUA tenham olhos no terreno. Com isso degradado, as baixas aumentam, o tempo do alerta [contra mísseis do Irã] em Israel diminui. Por isso, agora tem vídeo de mísseis entrando toda hora em Israel, que os interceptadores não conseguem mais barrar”
Pressões diplomáticas no Golfo
Aliados de Washington no Golfo passaram a pedir a busca de uma saída negociada diante dos riscos econômicos e de segurança. Autoridades catarianas defenderam a mediação regional como caminho para reduzir danos.
“Chegar rapidamente à mesa de negociações e suspender os ataques serviria aos interesses dos povos da região, bem como à paz e segurança internacionais, além de fortalecer a estabilidade econômica global”
Impacto sobre o mercado de petróleo e alinhamentos
Analistas destacam que as interrupções nas rotas comerciais do Golfo Pérsico, inclusive no Estreito de Ormuz e no Golfo de Omã, reverberam nos preços globais do combustível e obrigam ajustes de política externa por parte dos EUA.
O professor de relações internacionais Alexandre Pires avaliou a resistência iraniana e as expectativas iniciais de Washington quanto a uma rápida mudança de regime.
“O Irã tem apresentado uma resiliência muito mais forte do que se esperava. Inclusive, escolhendo uma liderança suprema sem nenhum tipo de negociação, e que dá um sinal de que o regime vai continuar na mesma linha que já seguia com o Khamenei”
Pires também comentou os efeitos sobre a economia global e decisões americanas recentes destinadas a atenuar os preços do petróleo.
“Ainda que tenha sido dito no início que duraria quatro, cinco semanas, obviamente que esse não era o tempo que os EUA queriam. Isso vai fazendo com que os EUA mudem talvez o foco atual de uma guerra completa, de ter que ficar o tempo necessário até você ter uma troca das lideranças”
Em entrevista à Fox News nesta terça-feira, o presidente Donald Trump declarou insatisfação com a escolha do novo líder supremo iraniano, ao mesmo tempo em que admitiu espaço para diálogo.
“é possível”
Do lado israelense, líderes expõem cautela quanto a uma escalada interminável, ao mesmo tempo em que buscam aproveitar fraquezas do Irã quando possível.
“Consultaremos nossos amigos americanos quando acharmos que é o momento certo para isso. Não estamos buscando uma guerra sem fim”
Ramos sublinhou também as consequências geoestratégicas mais amplas da campanha contra o Irã, apontando para um enfraquecimento da percepção de que os Estados Unidos seriam garantidores incontestáveis da segurança regional.
“O Irã vai ser o primeiro país da história que atacou tantas bases dos EUA ao mesmo tempo e sobreviveu. É por isso o desespero do Trump. Os países da região não vão mais confiar nos EUA no médio e longo prazo enquanto garantidor da sua segurança”
“Isso já estava acontecendo, os Emirados Árabes Unidos já firmaram um pacto de defesa com a Índia, a Arábia Saudita com o Paquistão”
Relatos e análises citadas pelas fontes indicam que o conjunto de perdas operacionais, pressões econômicas e pedidos de negociação por parte de aliados no Golfo compõem um quadro que empurra Washington em direção a soluções que não envolvam a substituição do regime em Teerã.

