Embaixador do Brasil no Irã diz que derrubar regime exigirá ofensiva sangrenta

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Em entrevista ao programa Alô Alô Brasil, transmitido pela Rádio Nacional na segunda-feira (9), o embaixador André Veras avaliou limites e custos de uma intervenção militar externa sobre o Irã. “Não haveria uma possibilidade de mudança [do regime iraniano] ou de algum fim deste conflito se fôssemos pensar apenas da perspectiva de ataques [exclusivamente] aéreos”

Ao apontar obstáculos a uma incursão terrestre, o embaixador relacionou a dimensão do território, o relevo montanhoso e a capacidade ofensiva iraniana e destacou que a discussão sobre a mobilização de tropas avançaria diante dessas dificuldades. “Então, a discussão sobre o [possível] envio de soldados”

Na mesma explicação, Veras afirmou que qualquer tentativa de depor o governo demandaria esforço muito maior do que em conflitos recentes e advertiu para o caráter violento da operação. “Então, aqui, a coisa vai exigir um pouco mais de esforço se quiserem, realmente, derrubar o regime. E acho que será uma tarefa hercúlea. Sangrenta”

Dez dias após Estados Unidos e Israel terem iniciado os primeiros ataques aéreos contra alvos em território iraniano, que mataram o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, e centenas de civis, o embaixador observou sinais de continuidade das rotinas urbanas e de funcionamento de serviços básicos. “O comércio está aberto. As escolas estão tendo aulas remotamente. Os mercados continuam abastecidos. Não há corte de energia, de água ou gás, mas a gasolina está sendo racionada. Não só por causa dos grandes ataques, mas porque, antes mesmo do início da guerra, o Irã já estava passando por uma limitação de sua capacidade de refino”

Veras também ressaltou a capacidade institucional de resposta do Estado iraniano, citando mecanismos legais e processos automáticos de substituição que mantêm a administração funcionando mesmo após perdas súbitas. “O Irã está muito bem estruturado legalmente. E o sistema tem uma resiliência muito grande. A morte, ou qualquer desaparecimento de [qualquer pessoa que ocupe] qualquer função tem um processo automático de substituição e nomeação do substituto”

A rápida escolha do sucessor do antigo aiatolá foi mencionada como evidência dessa solidez. A Assembleia dos Especialistas escolheu Seyyed Mojtaba Khamenei no fim de fevereiro, dias após o pai e parte da família serem mortos por bombas lançadas sobre a residência do antigo aiatolá, e a nomeação foi confirmada neste domingo.

O embaixador avaliou que a ascensão do filho de Ali Khamenei pode fortalecer críticas internas ao regime por remeter a práticas hereditárias que a revolução original havia combatido. “A revolução islâmica foi feita contra um regime hereditário. E, agora, assumir o filho [de Ali Khamenei], cria uma impressão de que o sistema substituído permanece, de outra forma”

Veras explicou a ligação do novo líder com setores influentes dentro do país, relacionando esse vínculo ao endurecimento da resposta estatal diante de dissidências e pressões externas. “Ele tem uma ligação muito forte com a Guarda Revolucionária e com os setores mais conservadores dos clérigos. O que faz com que as pessoas, aqui [no Irã], avaliem que, neste clima de contestação ao sistema islâmico, [sua escolha] seja uma dura resposta do Estado. Não só à insatisfação interna, como ao sistema contrário [ao regime] fora do país”

No plano das relações externas e das repercussões econômicas, Veras disse que a manutenção do conflito elevaria custos para todos e abriu espaço para negociações enquanto as perdas aumentarem. “Mesmo que alguns possam pensar que o [eventual controle do] fornecimento de petróleo vai favorecer este ou aquele país, em uma economia globalizada, todos perdem [com uma guerra]”

O embaixador não descartou, portanto, uma saída negociada caso o custo das hostilidades pressione por soluções diplomáticas. “Há espaço [para uma solução diplomática] porque os custos da guerra estão aumentando muito. Acho que isto trará um pouco mais de racionalidade à condução do processo”

Sobre brasileiros no Irã, Veras relatou contato diário com o Itamaraty e informou que não houve necessidade de operação de retirada em massa, em parte porque as fronteiras terrestres permanecem abertas e têm servido como rota de saída. Cerca de 200 brasileiros vivem no país, principalmente mulheres casadas com iranianos, e as demandas mais frequentes à embaixada têm sido relativas a documentação e vistos.

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