Polilaminina é testada em fase 1 para avaliar segurança em lesão medular

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Começam neste mês, com aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, os testes clínicos iniciais da polilaminina em humanos. O estudo de fase 1 envolverá cinco pacientes com lesão medular aguda completa na região torácica, será conduzido no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e tem previsão de conclusão até o fim do ano, conforme a equipe responsável.

A seleção dos voluntários seguirá critérios rígidos. Serão incluídos adultos entre 18 e 72 anos com lesões completas entre as vértebras T2 e T10 e indicação cirúrgica feita em menos de 72 horas após o traumatismo, segundo o protocolo aprovado pela Anvisa.

A professora Tatiana Sampaio Coelho, líder do projeto na Universidade Federal do Rio de Janeiro, explicou como será monitorada a segurança clínica durante a fase 1. “A gente vai monitorar eventos adversos para verificar se eles são os esperados, exames neurológicos para verificar se tem alguma deterioração, e temos também vários exames de sangue para ver se tem alguma toxicidade hepática ou renal. Isso vai ser comparado com a história natural provável para aquela pessoa, que é um paciente grave, e com outros estudos”.

Da descoberta ao laboratório

A polilaminina foi identificada por acaso pela própria Tatiana durante pesquisas sobre a laminina, proteína presente em tecidos humanos. Ao testar um solvente, a pesquisadora observou que as moléculas começaram a se agregar formando uma rede, a polilaminina, fenômeno que ocorre no organismo mas que até então não havia sido reproduzido em laboratório.

Com base nessa estrutura, a equipe da UFRJ e a farmacêutica Cristália investigaram o potencial da substância como um andaime para o crescimento de axônios, os prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais elétricos e químicos. Os trabalhos duram mais de 25 anos, com longa etapa pré-clínica em culturas celulares e modelos animais antes da transição para testes em humanos.

Estudo-piloto e evidências iniciais

Entre 2016 e 2021, um estudo-piloto aplicou a polilaminina em oito pessoas que sofreram lesão medular total por quedas, acidentes de carro ou disparo por arma de fogo. Sete desses pacientes foram submetidos, além da aplicação da substância, à cirurgia padrão de descompressão da coluna, realizada até 72 horas após a lesão.

Dois dos participantes morreram ainda no hospital por causa da gravidade dos ferimentos e outro faleceu pouco tempo depois por complicações relacionadas ao trauma. Dos cinco sobreviventes que receberam o tratamento cirúrgico combinado com a polilaminina, todos apresentaram ganhos motores mensuráveis, embora isso não tenha significado, para todos, retorno ao andar.

Quatro pacientes evoluíram da categoria AIS A para AIS C, recuperando parte da sensibilidade e do movimento de forma incompleta, e um paciente progrediu para AIS D, alcançando funções motoras praticamente normais. Esse caso, o de Bruno Drummond de Freitas, foi descrito pela equipe e pelo próprio paciente em entrevista na TV Brasil.

Sobre a própria experiência, Bruno relatou a mudança que observou nas primeiras semanas após o procedimento cirúrgico e a aplicação da substância. “Foi uma virada de chave. Na hora, pra mim, não tinha valor mexer o dedão do pé e não mexer mais nada. Mas todo mundo comemorou, e, aí, me explicaram que, quando passa um sinal do cérebro até uma extremidade, significa que o sinal está percorrendo o corpo inteiro”.

Após a intervenção e um processo de reabilitação intenso na AACD, Bruno reconquistou progressivamente movimentos e hoje anda normalmente, com limitações pontuais em alguns movimentos das mãos, conforme relato da equipe.

Os autores do artigo preliminar que descreve o estudo-piloto reconheceram limitações importantes, entre elas que até 15% dos pacientes com lesão completa podem recuperar movimentos espontaneamente, e que a classificação inicial pelo escore AIS pode sofrer interferência de inflamação e edema no período imediato após a fratura.

Essas ressalvas impedem que os resultados do piloto sejam tomados, por si só, como prova definitiva de segurança ou eficácia da polilaminina, mesmo diante do interesse e da repercussão pública que o trabalho alcançou.

O professor Eduardo Zimmer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, situou a fase atual do estudo no contexto tradicional de desenvolvimento de medicamentos. “Na fase 1, a gente tem poucos pacientes, saudáveis, porque ela visa identificar se o composto é seguro e se os humanos vão tolerar receber esse tratamento. Junto com isso, tem o que a gente chama de farmacocinética. Entender como é que a droga se comporta dentro do nosso organismo, como ela entra, como ela é metabolizada e como ela é eliminada”.

Zimmer acrescenta que a demonstração de eficácia costuma ocorrer a partir da fase 2, em que se amplia o número de voluntários e se testam esquemas de dose diferentes. No caso da polilaminina, a equipe já prevê, caso avance, avaliar duas dosagens distintas na etapa subsequente.

Para a fase 3, o padrão envolve ampliação do recrutamento em vários centros, divisão aleatória entre grupo que recebe a intervenção e grupo controle, e comparações que garantam que eventual benefício não decorra de outros tratamentos oferecidos em paralelo ou de variações naturais da evolução clínica.

O ex-presidente da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, Jorge Venâncio, apontou um dilema prático para ensaios desse tipo, em que o tratamento precisa ser administrado em janela temporal curta após o trauma, mas o eventual efeito se manifesta só depois de longo período de reabilitação. “Aqui, nós temos a seguinte dificuldade: o tratamento precisa ser feito num prazo relativamente curto depois do acidente que gerou o traumatismo, mas o tratamento tende a ter um resultado demorado. Então, quando o estudo se completar, provavelmente a equipe terá dificuldade de aplicar o remédio em quem tomou o comparador”.

Venâncio também ressaltou a necessidade de respeitar a sequência de fases para avaliar riscos antes de ampliar o número de participantes. “Você não pode botar uma substância que você não sabe se vai causar dano em uma população de centenas de participantes. Por isso, você testa primeiro numa população pequena e vê se o risco é pequeno o suficiente para fazer um estudo mais amplo. Na fase dois, você já começa a testar qual é a dose adequada e, na fase três, é quando você vai testar efetivamente o efeito da substância. Quando você não tem o grupo controle, você corre o risco de chegar a uma conclusão diametralmente oposta à realidade”.

Acompanhamento por órgãos regulatórios e comitês de ética é parte obrigatória do processo. A coordenadora da Instância Nacional de Ética em Pesquisa, Meiruze Freitas, lembrou que, após a aprovação, as atividades permanecem sob vigilância para proteger os participantes e assegurar boas práticas clínicas. “A polilaminina tem um fator de esperança, porque uma lesão medular causa muitas complicações, inclusive morte. Mas a gente precisa tomar muito cuidado para não abandonar os preceitos científicos. Essas fases não são estabelecidas por burocracia, mas para que a gente possa ter dados validados, com uma avaliação isenta, passível, inclusive, de ser revistas por pares, e para que a gente comprove que a tecnologia é realmente eficaz. Isso evita que a nossa população seja submetida a produtos que não são confiáveis”.

A coordenadora também colocou que, em casos específicos e quando justificado, o desenvolvimento pode ser acelerado e, eventualmente, permitir um registro após a fase 2, enquanto a fase 3 segue em andamento. “Teoricamente, ainda que sejam resultados parciais, na fase 1 e na fase 2, você já pode ter alguns indicativos de eficácia. E, para produtos como a polilaminina, que, em tese, não tem alternativa terapêutica além da cirurgia, você poderia encurtar o desenvolvimento, inclusive permitir, de repente, um registro no Brasil com a finalização da fase 2, enquanto a fase 3 ainda está em andamento”.

O ambiente regulatório recente também passou por mudanças destinadas a acelerar análises. A Lei 14.874, sancionada em 2024, reduziu prazos administrativos e determinou que comitês de ética respondam em até 30 dias e que a Anvisa conclua análise em até 90 dias, medidas que impactam diretamente estudos que buscam levar inovações para a prática clínica.

A equipe de Tatiana Sampaio enfatiza que o seguimento dos estudos, e a decisão sobre as próximas etapas, dependerá das análises de segurança, dos comitês de ética credenciados e da Anvisa, que continuarão acompanhando a pesquisa em todas as fases.

Os próximos passos previstos incluem a observação rigorosa dos cinco primeiros voluntários na fase 1, a eventual progressão para fase 2 com avaliação de doses e, se os resultados assim indicarem, a definição de protocolos multicêntricos para confirmar eficácia em amostras maiores e em diferentes centros.

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