Governo de São Paulo inicia separação de alunos por desempenho escolar

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A gestão estadual de São Paulo, sob o comando de Tarcísio de Freitas, deu início a um projeto experimental que classifica e divide estudantes da rede pública em salas de aula diferentes, baseando-se no rendimento acadêmico de cada um. A iniciativa, batizada de Projeto Voar, abrange os anos finais do ensino fundamental, do 6º ao 9º ano, e já está em funcionamento em 147 unidades escolares selecionadas para a fase piloto.

Os alunos foram distribuídos em dois modelos de turmas: as chamadas “padrão”, destinadas àqueles com defasagem de aprendizado baixa ou inexistente, e as “adaptadas”, voltadas para estudantes com defasagens consideradas médias ou altas. O critério para essa segmentação foram as notas obtidas nas provas de língua portuguesa e matemática do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) realizadas em 2025.

Dados da Secretaria da Educação indicam que a maioria dos estudantes envolvidos no projeto apresentou desempenho abaixo do básico. Das 1.437 classes formadas nas escolas participantes, 1.059 foram classificadas como adaptadas, o que corresponde a 74% do total. A pasta argumenta que o objetivo da medida é acelerar a aprendizagem de quem possui maiores dificuldades e reduzir desigualdades, retomando uma prática comum nas décadas de 1980 e 1990, mas que havia sido descontinuada na maior parte do país.

Diferenças no ritmo de ensino

A principal distinção entre os agrupamentos reside na velocidade com que o conteúdo é ministrado. Daniel Barros, subsecretário pedagógico da Seduc, detalhou a metodologia aplicada. “Na turma adaptada, o professor vai explicar com mais calma, pode dar passos para trás no conteúdo e voltar em habilidades que deveriam ter sido aprendidas em séries anteriores. Na turma padrão, ele pode manter o ritmo esperado para aquela série ou até avançar com mais velocidade se os alunos estiverem acompanhando”.

A justificativa pedagógica baseia-se na premissa de que classes heterogêneas dificultam o trabalho docente. Segundo Barros, ao tentar atingir um aluno médio, o professor acaba não atendendo adequadamente nem quem está defasado, nem quem está adiantado.

Falta de comunicação e estratégia de sigilo

A implementação do projeto gerou desconforto na comunidade escolar devido à ausência de aviso prévio às famílias. Pais e alunos não foram informados sobre a participação no experimento. Professores de unidades selecionadas relataram que só tomaram conhecimento da mudança na sexta-feira, dia 29, apenas dois dias antes do início do ano letivo.

Houve uma orientação expressa da Secretaria para que as escolas utilizassem uma lógica aleatória na nomeação das salas, evitando que os estudantes identificassem em qual nível foram alocados. Mauro Romano, responsável pelo projeto na Seduc, instruiu os docentes durante a apresentação. “Não podemos utilizar a lógica de colocar a turma A como sendo a melhor e a B ou C como sendo as de menor proficiência, como já foi feito no passado. Nossa recomendação é que vocês variem as nomenclaturas entre os anos e séries para evitar o risco de discriminação e rotulação”.

Apesar das tentativas de mascarar a divisão, relatos de professores apontam que os alunos perceberam as diferenças e questionaram a separação. Em alguns casos, responsáveis procuraram a direção para entender os motivos da alocação de seus filhos nas turmas adaptadas. Sobre a falta de consentimento, o subsecretário Daniel Barros defendeu a autonomia da rede. “O agrupamento dos estudantes é uma prerrogativa pedagógica da escola. Inclusive, diversas escolas já fazem isso sem falar com ninguém, porque essa é uma decisão pedagógica”.

Críticas de especialistas e avaliação futura

Estudiosos da educação alertam para os riscos da medida, citando possíveis impactos negativos na autoestima, aumento da indisciplina e potencial elevação da evasão escolar. Fernando Cássio, professor da Faculdade de Educação da USP, analisa a divisão como um reflexo da política de padronização curricular. “A secretaria optou e exigiu essa padronização curricular, o que pode levar a um currículo inatingível para muitos alunos. Ao restringir a autonomia dos professores na elaboração das aulas, na adaptação aos alunos reais e aos seus níveis de aprendizado, a padronização pode gerar frustração e sensação de fracasso”.

Para o especialista, a estratégia contradiz o discurso de evitar estigmas. “Em vez de criar um ambiente de competição e avaliação, é crucial promover a colaboração e a interação entre os alunos, reconhecendo que o convívio com colegas de diferentes níveis de aprendizado pode ser um fator positivo. A proposta de segregação, portanto, parece contraditória, pois se propõe a eliminar a estigmatização e a rotulação, ao mesmo tempo em que as reforça”.

O governo estadual nega que o modelo aumente a estigmatização, argumentando que o verdadeiro estigma reside na defasagem do aprendizado. O experimento terá seus resultados monitorados pela organização Parceiros da Educação e por uma equipe ligada a Harvard. Além das escolas participantes, outras 95 unidades servirão como grupo de controle para comparação. A previsão é que a avaliação dure um ano e, caso os indicadores não sejam positivos, o projeto poderá ser encerrado em 2027.

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